Brasília 2019: Piedade, onde ninguém tem pena de ninguém
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Brasília 2019: Piedade, onde ninguém tem pena de ninguém

Luiz Zanin Oricchio

24 de novembro de 2019 | 14h01

 

 

BRASÍLIA – Primeiro longa em competição, Piedade, trouxe de volta Cláudio Assis, tricampeão em Brasília, vencedor com Amarelo Manga, Baixio das Bestas e Big Jato. É cartel para ninguém botar defeito e o novo opus, Piedade, não decepciona e chega com força. 

O filme imagina uma região litorânea ameaçada por uma companhia petrolífera fictícia, a Petrogreen. Associar o ouro negro ao verde das matas e à pureza das praias é apenas uma das ironias contidas neste filme de vários vértices. Há nele a questão ecológica, a gentrificação que expulsa as pessoas de seus locais de origem, as lutas sociais. 

A arrogância do capital é personificada em Aurélio (Matheus Nachtergaele), agente da companhia petrolífera que deseja comprar as terras. Aurélio surge no ambiente dominado por Dona Carminha (Fernanda Montenegro) e seu filho Omar (Irandhir Santos) como uma espécie de anjo exterminador. Investe mesmo numa intriga familiar para desestabilizar o clã e facilitar o negócio. 

No debate, a intervenção mais iluminadora foi de Matheus Nachtergaele, refletindo sobre seu personagem. Disse Matheus que nos primeiro papeis de sua carreira havia interpretado tipos do Brasil profundo, como por exemplo, João Grilo, do Auto da Compadecida. Agora, vivia um personagem que, no país contemporâneo, era também um tipo brasileiro, já incorporado à paisagem, solidificado, quase “de raiz”. O arrivista, que só pensa em dinheiro, manipulador, o tipo dominante no país que enaltece o empreendedorismo e a meritocracia como as virtudes cardeais. É o Brasil atual, no qual não se permite sonhar, o país brutal, materialista e impiedoso, o país das milícias. Por isso, esse país implacável, por ironia, materializa-se num local chamado Piedade. Dói. Mas a boa arte é feita tanto de prazer como de dor. 

Curtas 

Dois belos curtas femininos abriram a competição: Alfazema, de Sabrina Fidalgo, e Carne, de Camila Kater. 

Alfazema, de Sabrina Fidalgo

Em Alfazema, a protagonista Flaviana tenta se livrar do “boy” que levou para casa na noite anterior. É carnaval e o corpo do rapaz é registrado sob o chuveiro, coberto de purpurina. Inclusive o pau. O filme é muito criativo, e resolve-se numa espécie de metalinguagem, no qual Deus e o Diabo aparecem para interferir na vida de Flaviana. Forte concorrente, representante do feminismo negro, mas destacando o prazer ao invés da dor e da opressão. “Deus” é interpretado pela intelectual, poeta, atriz e artista multimídia Elisa Lucinda. Um show. 

Carne é uma animação com depoimentos femininos sobre a relação com o corpo em diversas fases da vida. Entre elas, a da atriz do Cinema Novo e Cinema Marginal, Helena Ignez. Muito bonito, inventivo e lúdico, procura o olhar feminino sobre o corpo, desalojando o olhar masculino, machista e patriarcal sobre a mulher-objeto. 

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