‘Marguerite e Julien’, o tabu do incesto
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‘Marguerite e Julien’, o tabu do incesto

Luiz Zanin Oricchio

13 de fevereiro de 2017 | 17h06

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Soube que Marguerite e Julien, de Valérie Donzelli, foi apedrejado no Festival de Cannes do ano passado.

Vendo o filme fiquei surpreso com reação tão raivosa. Mas, dando uma pesquisada, notei que dividiu a crítica. Entre as quatro estrelas dos Cahiers du Cinéma e a estrela solitária do Libération, há toda uma gama de opiniões.

O filme tem uma origem ilustre. Trata-se de um roteiro de Jean Gruault para François Truffaut, que acabou não o filmando. Ficou inédito e caiu agora com Valerie, cineasta ousada, conhecida entre nós por seu A Guerra Está Declarada. Este filme narra a saga para conseguir o tratamento de uma criança atingida por grave doença.

Como Valerie não brinca em serviço, o tema de Marguerite e Julien também não é refresco. Trata-se da história (verídica) de um caso de incesto entre irmãos com desfecho trágico. Marguerite e Julien amam-se desde a tenra infância. Quando se tornam adultos, dão seguimento à paixão mútua, por outras vias, naturalmente.

A família deles, Ravalet, é poderosa, mora num castelo no campo, tem serviçais e todos os confortos, mas nem os poderosos escapam ao tabu do incesto. De modo que, para separar os amantes, a família Ravalet arruma um casamento de conveniência com um rico comerciante, o que só faz agravar as coisas. O final trágico é mais do que esperado.

Mas não é isso que mais chama a atenção no filme de Valerie Donzelli e sim sua maneira de filmar. Por exemplo, usa à vontade anacronismos, que conferem certo distanciamento ao enredo. Num filme de época (1603), o primeiro plano mostra um helicóptero levantando voo. Outros utensílios contemporâneos se imiscuem na trama, como um telefone ou um automóvel. Não se trata apenas disso. Os diálogos soam contemporâneos e os atores, Anaïs Demoustier (Marguerite) e Jérémie Elkaïm (Julien), não parecem pessoas do século 17, mas jovens que poderiam ser vistos nas ruas, dentro do metrô, tomando um café no bistrô.

O propósito parece simples – fazer o aggiornamento da história, considerando que o incesto continua tabu nos dias de hoje (é um dado de estrutura e não de circunstância), embora não cause punições como as daquela época. Também serve para espanar a poeira e tirar o mofo que se acumulam com tanta facilidade nos filmes de época. Esta é uma história rock’n’roll, que fala de um caso antigo e o traz para os nossos dias.

Aceitas as premissas, não há, a meu ver, motivo para desgostar de Marguerite & Julien. Ele tem o sabor agridoce dos amores proibidos e o frêmito de indivíduos que se batem contra o poder maior do Estado que, como se sabe, não discute suas razões. O filme é sacudido e tem ritmo. O fecho se dá com um belo poema de Walt Whitman, o que seria um anacronismo a mais, já que o poeta viveu no século 19 e a história se passa no 17.

 

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