Ferreira Gullar e o cinema
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Ferreira Gullar e o cinema

Luiz Zanin Oricchio

04 Dezembro 2016 | 17h21

cabra

Ferreira Gullar não foi apenas o escritor genial de Poema Sujo ou o crítico de arte agudo de Argumentação Contra a Morte da Arte.  Teve também seu nome ligado ao cinema. Não apenas em filmes feitos em sua homenagem, ou sobre sua obra, mas como narrador em títulos importantes.

Sua voz de locutor prestava-se muito bem à posição do narrador e, por isso, a ocupa em duas obras-primas como Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, e Imagens do Inconsciente, de Leon Hirszman.

Como se sabe, Imagens do Inconsciente debruça-se sobre o trabalho artístico dos internos no Hospital Psiquiátrico de Engenho de Dentro, sob direção da doutora Nise da Silveira. Gullar tinha particular interesse pelo assunto, até mesmo por razões pessoais (tem um filho diagnosticado como esquizofrênico). Escreveu em 1996 o ensaio biográfico Nise da Silveira – uma Psiquiatra Rebelde sobre essa revolução tanto na psiquiatria como nas artes brasileiras, pilotada pela figura de Nise da Silveira. Nise e Gullar partilhavam também convicções ideológicas: ambos pertenceram ao Partido Comunista (Nise foi presa durante o Estado Novo, Gullard exilado pela ditadura).

Gullar emprestou sua voz a muitos outros filmes: Brasília, Contradições de uma Cidade Nova e O Aleijadinho, ambos de Joaquim Pedro de Andrade; Cantos de Trabalho no Campo, de Leon Hirszman, e Chico Antonio – Herói com Caráter, de Eduardo Escorel. De Arte nas Cidades, de Ney Costa Santos, escreveu o texto, assim como de Iberê Camargo – Pintor Brasileiro, de Ricardo Miranda, no qual faz também a narração. Em Maioria Absoluta, também de Hirszman, faz narração e comentários.

E está presente como depoente ou testemunho em vários filmes como Vinicius de Moraes, um Rapaz de Família, de Suzana Moraes, e também em Câncer, de Glauber Rocha, no qual pode ser visto em longa sequência de abertura. Imagens preciosas de um jovem Ferreira Gullar (o longa de Glauber é de 1968). Aparece também em Vinícius, de Miguel Faria Jr., O Velho – A História de Luiz Carlos Prestes, de Toni Venturi, Vida Provisória, de Maurício Gomes Leite, Poeta de Sete Faces (Vida e Poesia de Carlos Drummond de Andrade), de Paulo Thiago e A Paixão segundo Callado, de José Joffily.

Por outro lado, o poeta é personagem principal do documentário Ferreira Gullar – a Necessidade da Arte, de Zelito Viana, filme que debate suas ideias sobre o desenvolvimento das artes plásticas e a necessidade humana da fruição do belo. O mesmo Zelito realizou também o média-metragem Gullar – O Canto e a Fúria.

Silvio Tendler fez uma série documental em sete capítulos, exibida pela TV Brasil, chamada Há Muitas Noites na Noite, inspirada no Poema Sujo e no livro Rabo de Foguete, sobre a experiência de exílio do poeta. Zelito Viana está desenvolvendo um novo documentário chamado Gullar em 5D.

Homem de letras, Gullar dialogou com frequência com a arte das imagens em movimento. E nela também deixou sua marca.

 

 

Mais conteúdo sobre:

Ferreira Gullar