Verhoeven, de ‘Instinto Selvagem’ e ‘Showgirls’ a ‘Elle’
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Verhoeven, de ‘Instinto Selvagem’ e ‘Showgirls’ a ‘Elle’

Luiz Zanin Oricchio

21 de novembro de 2016 | 17h41

Elizabeth Berkley em Showgirls

Elizabeth Berkley em Showgirls

Como alguns colegas e amigos, também eu acho que um dos melhores filmes da Mostra foi Elle, de Paul Verhoeven, já em cartaz no circuito comercial. Talvez pela interpretação magnífica de Isabelle Huppert, talvez, também, pela mise-en-scène do holandês, que me pareceu fluida, delicada, ao mesmo tempo que incisiva, mas também mais leve que em trabalhos mais antigos.

Na própria mostra vi um Verhoeven mais antigo, O Quarto Homem, sobre um escritor bissexual, que sai de Amsterdã para dar uma palestra numa cidade vizinha e cai na rede de uma mulher encantadora porém bastante perigosa. O filme é de 1983.

Verhoeven, desconfio, saiu do circuito apenas cinéfilo com o grande sucesso comercial de Instinto Selvagem, a famosa cruzada de pernas de Sharon Stone. Ela também vivendo uma escritora bissexual, linda e perigosa. Os temas vão se repetindo, ao sabor das obsessões do diretor.

Outro dia, num momento de ócio, vi no Netflix Showgirls, um dos filmes mais antigos do diretor e que ganhou certa notoriedade crítica após ser massacrado pela maioria dos jornalistas na época do lançamento, 1995. Depois, tem sido recuperado por certos setores da crítica. Nele, temos a personagem de Nomi Malone (Elizabeth Berkley), mocinha de passado incerto decidida a se tornar dançarina em Las Vegas. Lá, ela se vê diante de um mundo sem muitos escrúpulos morais (ou de qualquer ordem) e obstina-se em subir na vida a qualquer preço e tornar-se top. O que implica desbancar a estrela da hora, a sinuosa Cristal Connors (Gina Gershon), na qual pressentimos a víbora sob a capa da fêmea.

O filme tem, de fato, um quê de A Malvada, de Mankiewicz, com a novata Anne Baxter tentando desbancar a diva Bette Davis. Bem, é um tema recorrente, que reaparece, por exemplo, em O Diabo Veste Prada e de maneira um tanto mais intelectualizada em Acima das Nuvens, de Olivier Assayas. A competição humana, o novato que tenta puxar o tapete do veterano, que, por sua vez, defende sua posição com as armas de que dispõe.

Showgirls, eu disse acima, foi de maneira geral massacrado, tachado de filme grosseiro, erótico demais, mal interpretado, etc. Bom, meio grosso ele é mesmo. Ou, por outro lado, retrata, sem meios termos, um mundo muito grosseiro que é o do showbiz, em especial em sua modalidade erótica, cujas fronteiras com a prostituição e o proxenetismo são muito, mas muito fluídas mesmo. Agora, erótico ele não é, embora mostre belos corpos nus em poses sensuais. Tudo parece tão mecânico que às vezes lembra a famosa boneca de Casanova de Fellini.

Mas tudo isso é tema, enredo, conteúdo, etc. Fica em aberto se Showgirls é mesmo um filme voyeur ou se propõe lançar um olhar crítico sobre aquele modo de vida. Que, tudo somado, é a maneira como o capitalismo organiza a exploração erótica dos corpos para fim de lucro. Espero que não considerem essa última frase rançosa ou démodée, coisa de esquerdista. Me parece constatação apenas óbvia e nem precisamos ir a Las Vegas para conferir.

Em todo caso, é na maneira como filma isso tudo que Verhoeven às vezes me parece óbvio demais, sensacionalista e, em suma, meio grosso. Embora me pareça tudo isso, não se pode negar o poder de atração das suas imagens, do ritmo que impõe ao filme, das cores, das luzes, da música, do ambiente lisérgico que ele sabe captar. Tem clima. 

No entanto, voltando a Elle, me parece igualmente óbvio que a idade fez bem a Verhoeven. Mesmo que haja quem deteste o filme (Susana Schild, em O Globo, botou o bonequinho para dormir), ele parece bem mais elegante, sutil e ambivalente que seus anteriores. Pode ser que, influenciado por esse violino cheio de timbres inesperados que é Isabelle Huppert, Verhoeven tenha domado seus instintos mais toscos. Ou “básicos”, como ele poderia dizer, referindo-se ao título inglês do seu filme mais famoso, Basic Instinct. A francesa lhe deu ideias mais elegantes mas nem por isso menos perversas. 

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