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Cine PE 2016: Por Trás do Céu

Luiz Zanin Oricchio

24 de setembro de 2015 | 17h18

Recife – Cá estou para mais um Cine PE, o festival do Recife que está completando 20 anos. E há 20 anos eu venho. Participei do primeiro, como jurado, a convite do casal Alfredo e Sandra Bertini, que criaram o festival e o comandam até hoje. O festival passou por várias fases. Começou pequeno, cresceu, tornou-se o evento do gênero de maior público, quando fazia suas sessões na enorme sala do Centro de Convenções Guararapes, na divisa com Olinda. Agora, readequou-se aos novos tempos e faz sua mostra competitiva no lindo Cinema São Luiz. Um sala suntuosa, dos anos de ouro do cinema, restaurada e aconchegante.

Ontem começou a mostra competitiva. Na sessão teve também a homenagem ao ator Jonas Bloch, que recebeu o troféu das mãos de sua filha, a atriz Deborah Bloch. Foi legal, discreto. Rápido. E passamos aos filmes.

O primeiro longa concorrente, Por trás do Céu, de Caio Sóh, não me agradou muito. Filmado no Lajedo de São Mateus, na Paraíba, tinha um cenário dos deuses. E mais elenco global: Nathalia Dill, Emilio Orciollo, Paula Burlamaqui, Renato Goes. A história me pareceu frágil. E o visual, fashion. Sem alma.

Um casal mora solitário num lugar isolado (o Lajedo), sem que se saiba ao certo por quê. Depois, em flash back, a trama tenta esclarecer. De certo, há a mulher, Aparecida (Nathalia Dill), que sonha sair do lugar e conhecer a cidade. O marido se opõe. E tem suas razões. Há um terceiro elemento que se intromete (Micuim, vivido por Renato Góes), um personagem cômico, que vem da cidade e traz lembranças para os amigos, em especial uma garrafa de água do mar. Há também uma prostituta desgarrada (Paula Burlamaqui), que, fugida do seu cafetão, se junta ao grupo e traz algum desequilíbrio à trama.

O visual lembra alguma coisa de um Mad Max sertanejo e os diálogos são muito fracos. As situações se repetem, sem senso de síntese, e a dramaticidade, quando aparece, é de baixa intensidade. Não se vê bem o propósito do longa. As metáforas são obvias. E não há a disposição de entrar de cabeça no realismo mágico, embora pareça ter vontade.  Enfim, tudo isso na minha maneira de ver. Registre-se, no entanto, que foi bem recebido pelo público que, na aparência, se divertia com a história. É possível que, com elaboração maior e mais intensa, talvez com troca de ideias, Sóh pudesse ter extraído mais de seu tema original.

Curtas. Por outro lado, dois curtas interessantes, Não tem Só Mandacaru, de Tauana Uchôa, e Paulo Bruscky, ambos de Pernambuco.

O primeiro busca um retrato não estereotipado do Nordeste através de uma visita à cidade de São José do Egito. Cidade de artistas, poetas e cantadores, que louvam a figura do maior entre eles, Louro, apelido de Lourival Batista, já falecido e autor de versos geniais. A cidade toda parece se dedicar à poesia e, como diz um dos personagens, ser poeta é mais uma atitude diante da vida que uma prática. Bem legal.

O outro é um sofisticado estudo de Walter Carvalho com o artista plástico Bruscky. Através de um artifício cinematográfico, Carvalho faz com que o artista dialogue com um “duplo”. O homem é inquieto, cheio de dúvidas criativas e impasses. A arte é sua maneira de caminhar por seu próprio labirinto. E também o centro de sua indagação. Por isso responde que, quando descobrir o que é a arte, será tempo de parar. Ótimo filme, estimulante como costumam ser os trabalhos de Carvalho.

 

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