Gramado 2015. Ausência
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Gramado 2015. Ausência

Luiz Zanin Oricchio

13 de agosto de 2015 | 11h51

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Quanto a Ausência, de Chico Teixeira, tenho pouco a acrescentar em relação à crítica que havia escrito quando o filme passou na Mostra de São Paulo, ano passado.

Resta falar das circunstâncias de Gramado. Chico não veio e mandou mensagem em vídeo que comoveu a plateia. De gorro, dizia que estava fazendo tratamento médico e sentia muito não subir a serra para o festival. Então, tirou o gorro e revelou a carequinha. Está no final de um tratamento de radioterapia. Chico é pessoa amada por todo mundo no cinema. Desejamos a ele rápido e completo restabelecimento. Faz falta ao nosso convívio. Volte logo, Chico.
Abaixo, a crítica do filme. Mantenho o que disse. Apenas um reparo. Ou dois. Neste texto, não fiz caso da presença do circo e da feira na narrativa. Essa duas instituições centenárias (talvez milenares) têm grande papel na narrativa. Para vocês terem ideia, Ausência é o título que remete à falta do pai, entre outras enfrentadas pelo protagonista. Na lembrança criativa que eu tinha do filme, julgava que Serginho, no final, ia atrás do pai. Não. O desfecho é outro. E muito melhor.

A crítica

Ausência, de Chico Teixeira, traz as marcas do longa de ficção anterior do cineasta, o festejado Casa de Alice. Aqui, também, a nota é a de um realismo lacunar, que passa ao largo do naturalismo televisivo. É imersão na vida, mesmo, e não nas platitudes e convenções de um padrão fácil e palatável para o público. Que, no entanto, não deverá encontrar dificuldade em se identificar com o adolescente Serginho (Matheus Fagundes), em plena crise de identidade.
Ele mora com a mãe (Gilda Nomacce) e tem como mentor um professor iluminado (Irandhir Santos). O pai sumiu no mundo, a mãe cria os dois filhos sozinha e luta com dificuldades para mantê-los. Mora praticamente de favor e, por cima, enfrenta dificuldades com o álcool. É uma vidinha de classe média baixa (como em Casa de Alice), segmento em que Teixeira parece encontrar seus melhores meios de expressão. No mundo do garoto Sérgio, existem ainda os amigos Mudinho e Silvinha. Tudo no diminutivo, mas os conflitos, existenciais e sexuais (entrelaçados) nada têm de pequenos. Pelo contrário.

A maneira como são encenados, entretanto, dão provas, mais uma vez, da delicadeza do diretor. Se o garoto Serginho oscila, indeciso e conflitado, entre suas possibilidades de identificação amorosa, nem por isso essa trajetória será explicitada de maneira brutal, como fazem outros diretores a pretexto de romper padrões ou simplesmente “chocar”a plateia careta. “Épater le bourgeois”, como diziam os modernista no começo do século passado. Sem levar em conta que hoje, dificilmente, alguma coisa choca alguém, quanto mais burgueses calejados.

O que talvez produza mais impacto é justamente o caminho escolhido por Chico Teixeira. Sem baratear a problemática dos personagens, preserva, para eles, algumas zonas cinzentas, nas quais nem tudo pode aflorar e ser exposto. Isso em nada prejudica a narrativa. Pelo contrário, a tonifica. No domínio do explícito nem sempre se leva em conta essa velha lição da arte – deixar espaços em branco para que o espectador neles projete seus pensamentos e sentimentos. E assim contribua para que o filme se complete na emoção e na razão daqueles que o assistem.
Esse talento lacunar do diretor é completado por um elenco muito afinado. O garoto Matheus Fagundes vai muito bem, enquanto Gilda e Irandhir são atores consagrados que continuam a gostar do risco e da aventura em filmes menores, incertos e nos quais se expõem, trabalhando em nome do público. É o que também faz o cineasta Chico Teixeira, com sua emoção discreta e, por isso mesmo, mais verdadeira e atuante.

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