127 Horas
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127 Horas

Luiz Zanin Oricchio

18 de fevereiro de 2011 | 11h21

Um ato de radical individualismo, pintado com as cores fortes que Danny Boyle (Quem Quer Ser um Milionário?) imprime a seus filmes: tais são as atrações de 127 horas, candidato ao Oscar, que estreia hoje.

Para quem não conhece a história, o título pode ser intrigante. Refere-se ao número de horas que um aventureiro solitário passou com o braço preso numa rocha, sozinho no deserto, lutando contra a sede, a dor e a inanição, e tendo a seu favor apenas uma férrea vontade de viver.

A história é real e aconteceu com o jovem Aron Ralston, no filme interpretado pelo intenso James Franco. Adepto de esportes radicais, o jovem sai de casa numa sexta-feira, dirige sua pick-up a noite inteira em direção ao um cânion. Lá chegando, pedala durante horas e prossegue a caminhada a pé. Encontra-se com duas garotas e, durante algum tempo, exploram juntos os encantos do lugar. Logo em seguida, separam-se.  Ralston prossegue sozinho, até cair numa fenda da rocha e ficar preso.

Ao mostrar uma situação dessas, as opções cinematográficas se reduzem. Manter o foco sobre o personagem e investir no aspecto claustrofóbico e desesperador da situação? Ou explorar o que se passa pela mente de quem se encontra preso na armadilha?

Boyle, fiel a seu estilo bastante exuberante (às vezes até demais) opta por uma solução mista. A câmera se mantém tanto fixada na situação presente do personagem e suas tentativas para se livrar quanto em seus delírios nos momentos de maior aflição. Acresce o fato de que Ralston costumava documentar suas façanhas com sua pequena câmera de vídeo. Preso, dirige-se a ela, primeiro para registrar aquelas agruras como parte da aventura, algo a ser mostrado aos amigos depois que tudo tiver passado; depois, nos instantes de maior depressão, o vídeo é usado para deixar uma mensagem de despedida aos pais.

Então, temos uma dupla imagem: a câmera particular, com o autorregistro do rapaz preso em sua armadilha, e a câmera do filme, essa testemunha silenciosa que engloba tudo e o expõe ao espectador. Essa sobreposição de imagens até seria interessante. Mesmo porque James Franco “interpreta” para a sua câmera particular. Por exemplo, usando de um raro senso de humor para quem se encontra naquela situação. Ao passo que a outra câmera, que registra a “verdade”, nos faz ver, sem rodeios, toda a dramaticidade do que está acontecendo com Ralston. E do que, provavelmente, está por vir.

Entende-se porque Boyle resolveu incluir os devaneios e alucinações da vítima entre as imagens mostradas. Primeiro, porque construir um filme inteiro com cenas unicamente tomadas na fenda da rocha seria muito limitante. Talvez insuportavelmente claustrofóbico para o espectador. Segundo, porque é mesmo provável que uma pessoa naquela situação apele para fantasias compensatórias como forma de manter um mínimo de sanidade mental.

E o que se tem no personagem é uma sanidade impressionante, uma determinação moral inquebrantável. De que outra forma seria pensável o ato extremo que leva a cabo, o único e radical ato capaz de lhe salvar a vida? Essa sequência é mostrada com toda a crueza, mas, ao mesmo tempo, sem qualquer sensacionalismo. Pode causar incômodo em alguns espectadores. Sabe-se que, nos Estados Unidos, alguns desmaiaram e sentiram-se mal. Ou essas informações talvez façam apenas parte do marketing do filme, uma maneira de dizer o quanto ele é duro e realista e, por isso, indispensável. Hoje em dia nunca se sabe.

De qualquer forma, funciona e causa impacto cinematográfico, embora talvez uma certa sobriedade de tom o deixasse ainda mais forte. Mas pedir sobriedade a Boyle talvez não seja razoável.

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