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Diário de Veneza 2014. Birdman

Luiz Zanin Oricchio

30 de agosto de 2014 | 13h23

Veneza – Começar bem é tudo. E Veneza começou bem com o primeiro
concorrente, Birdman, produção norte-americana dirigida pelo mexicano
Alenjandro Iñarrítu (o González agora ele só abrevia com G.) A
história é a de um ator que já viveu um superherói (O Homem Pássaro do
título) e agora deseja mostrar a si e à família que também é capaz de
interpretar uma peça autoral, escrita por ninguém menos que o cult
Raymond Carver (o escritor de Short Cuts, que deu no grande filme de
Robert Altman). Na verdade, trata-se de uma peça de teatro de Carver,
De que Coisa Falamos quando Falamos de Amor.

Em entrevista Iñarrítu disse que só poderia fazer esse filme com
alguém que de fato tivesse vivido um superheroi na tela, o que é o
caso de Keaton, o Batman. “Mas também era fundamental alguém que
topasse sair da zona de conforto e transitar entre a comédia e o
drama”, como faz o personagem de Keaton, o ator Rigan Thomson. Ele é
um tipo atormentado, que deseja a fama no palco após ter encarnado o
superherói. Ouve uma estranha voz profunda, que o critica e tenta
comandar seus atos. Mantém alguns poderes, como o dom da levitação e a
capacidade de mover objetos metálicos apenas com o poder da mente.
Dito assim, parece risível. E talvez até seja mesmo, porque o diretor
calibra seu personagem entre o dramático e o cômico.

Sobre esse ponto, de passagem, Iñarrítu disse que depois de ter feito
muitos filmes com grande peso dramático, queria experimentar a leveza
da comédia – desejo que estaria na origem deste projeto.

O fato é que, além de contar com bom elenco (além de Keaton, Edward
Norton, Naomi Watts e Emma Thompson), Iñarrítu faz fé num dos traços
característicos do seu cinema – a energia que impõe à narrativa, com
cenas que vão de closes a planos-sequência caprichados e intensos.
Nota-se que, ao trabalhar com atores famosos, Iñarrítu os tensiona de
modo a assumirem riscos. “Fiquei impressionado ao ver o filme sobre o
Philippe Petit, o francês andou sobre um cabo de aço entre as Torres
Gêmeas”, diz Iñarrítu. Fez com que os seus atores e atrizes vissem o
documentário de James Marsh, O Equilibrista, sobre a façanha de Petit.
Na verdade, ele toma a ousadia de Petit como metáfora para o desafio
da arte.

Através dessa história, mesclada de realismo com traços fantásticos,
Iñarrítu toca em questões bastante interessantes: a procura alucinada
pela fama que, depois de conquistada parece mais um peso que uma
vitória, a competição desabrida no meio artístico, a arrogância da
crítica, que se julga capaz de determinar o sucesso ou o fracasso com
o mero exercício da opinião. Coisas da natureza humana, enfim, e
exacerbadas num meio e numa sociedade em que o sucesso é a medida de
todas as coisas. O espírito latino de Iñarrítu, talvez ainda não
dominado pela indústria, impõe uma visão crítica a essa ordem das
coisas, num filme de alguns momentos brilhantes, outros divertidos,
exemplo de que se podem fazer boas coisas mesmo no esquema dos grandes
estúdios. Em geral não se faz, mas é possível. E o filme, inclusive,
fala dessa possibilidade e dos seus limites.

 

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