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Zizek, mensagens subliminares e as parábolas cristãs de Capra e Fellini

Luiz Carlos Merten

11 de maio de 2020 | 19h54

Diverti-me muito no fim de semana assistindo ao Guia Pervertido da Ideologia, de Sophie Fiennes, com as críticas de Slavoj Zizek ao cinema, ou melhor, aos filmes. Na verdade, não só aos filmes. Zizek integra a Coca-Cola e o Kinder ovo a esse olhar que mistura Freud, Marx e Lacan para desvendar a forma como a ideologia dominante destila sua propaganda de forma subliminar e cria o desejo no imaginário individual e coletivo. Vi duas vezes o primeiro episódio, e por bizarro que pareça em ambas o filme já havia começado e a cena era a mesma (minutos antes da segunda vez). Zizek e o desejo, a cena de A Noviça Rebelde em que Maria/Julie Andrws, perturbada pelo interesse do Capitão e pela própria reciprocidade, volta ao convento e a madre canta Climb Ev’ry Mountain, legitimando o que ela sente. Travis que quer proteger a prostituta mirim em Taxi Driver e promove um banho de sangue, que termina com o gesto simbólico com que ele finge atirar em sua cabeça – todo o filme é uma invocação ao suicídio, à autodestruição que o culto à violência termina por engendrar. Zizek conta que a cena do musical de Robert Wise foi cortada inteira pela censura na antiga Iugoslávia, comunista e ateia, do Marechal Tito, revelação que, pessoalmente, achei muito interessante. Faz o link entre Táxi Driver e o clássico de John Ford, Rastros de Ódio. John Wayne busca a sobrinha sequestrada pelos índios e é a obsessão dele, como Jodie Foster é a de Robert De Niro. Zizek não fala, mas os dois, Ethan Edwards e Travis, são veteranos de duas guerras imperialistas, contra os índios e a do Vietnã. Usam a expertise que adquiriram em combate para levar agora a guerra deles. Travis é suicida, Ethan é o individualista que não consegue se integrar no grupo – começa e termina o filme fora da casa. Scorsese e Ford. Na Cahiers de fevereiro, numa longa entrevista sobre O Irlandês, Scorsese é o primeiro a admitir quanto deve ao Ford de O Homem Que Matou o Facínora,. Mas faz críticas à interpretação de Lee Marvin, diz que ele super-representa como o méchant Liberty Valance. Se o Lee Marvin exsagera, o que faz Joe Pesci? Sei que todo mundo ama Joe Pesci, menos eu. No Scorsese, como nos filmes da série Esqueceram de Mim, ele é sempre over, o mesmo cara no Chris Columbus, mas pelo menos a violência de Kevin é de cartum, o que faz mais sentido. Por falar em link, me decpcionei muito quando (re)vi A Estrada da Vida na retrospectiva de Federico Fellini, antes da pandemia, no Cinesesc. Devo ter visto o filme há 50 e tantos anos, não me lembrava de muita coisa, mas dada a sua fama de clássico, fui com sede ao pote, mesmo não sendo felliniano (fellinimaníaco?) de carteirinha. Como Scorsese no caso da interpretação de Lee Marvin, empaquei na Masina como Gelsomina. Aquele patetismo chapliniano não me convenceu nem um pouco, já o Matto de Richard Basehart me pareceu muito interessante. A parábola cristã, o papel que todos temos na criação divina, conforme ele explica a Gelsomina. Gostei mais do ator que do personagem, confesso. Nos EUA, Basehart trabalhou com John Huston (Moby Dick), Richard Brooks (Os Irmãos Karamazov) e participou da série cult de TV, Viagem ao Fundo do Mar. Com Fellimni, voltou a trabalhar em A Trapaça. Minha surpresa, zapeando outra noite na TV paga, foi esbarrar no Frank Capra, A Felicidade não Se Compra. Peguei justamente na cena em que George Bailey/James Stewart, achando que fracassou, tenta se jogar da ponte. Aparece o anjo, que satisfaz seu desejo – não ter nascido – e lhe mostra como teria sido a vida das outras pessoas sem ele. A parábola cristã de Capra precede de alguns anos a de Fellini. Todos temos o nosso papel na Criação (com maiúscula). Fellini coloca nas palavras do Matto – “Esta pedra com certeza serve para alguma coisa. Se for inútil, todo o resto é inútil, até as estrelas. E, você (Gelsomina), também serve para alguma coisa.” Capra pensa a mesma coisa, mas entrega de outra forma. Deixa a reflexão para o espectador, se quiser fazê-la. O farmacêutico, sem Bailey para detectar o erro de uma fórmula, provoca uma morte, perde a credibilidade, a farmácia e vira um velho bêbado e sem-teto. Donna Reed, a mulher de Bailey, nunca se casa. Vira uma mulher triste, solitária. Não vi o Capra inteiro, mas conheço a fama do diretor, o desprezo que seus ‘ismos’ provocam na crítica. Pode ser que o isolamento tenha me deixado mais vulnerável, mas achei tão emocionante que, quando aparece o irmão, herói de guerra, que teria morrido se não fosse por Bailey, cheguei a chorar (grande novidade). E que extraordinário ator era James Stewart. O comediante dos anos 1930 virou o grande ator dramático de Anthony Mann e Alfred Hitchcock nos 50, e o Capra, de 1946, já mostra isso num papel cheio de modulações.

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