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Yves Robert e seu díptico baseado em Marcel Pagnol

Luiz Carlos Merten

09 de março de 2019 | 10h38

Entre os muitos amigos de Agnès Varda que participam de Cléo das 5 às 7 (Jean-Luc Godard, Anna Karina, Sami Frey, Michel Legrand, etc) estão Yves Robert e a mulher, Danièle Delorme. Ator, mímico, produtor, diretor, roteirista. Robert foi um homem de múltiplos talentos que, no começo dos anos 1960, recebeu o Prêmio Jean Vigo por um filme clássico sobre a infância – A Guerra dos Botões. Dirigiu duas comédias que tiveram versões hollywoodianas – Loiro, Alto, de Sapato Preto e O Doce Perfume do Adultério (viraram O Homem do Sapato Vermelho e A Dama de Vermelho). Por volta de 1990, Robert fez um díptico adaptado de Marcel Pagnol, La Gloire de Mon Père e Le Cháteau de Ma Mère. A Glória do Meu Pai e O Castelo de Minha Mãe. Pagnol, escritor, cineasta, debruça-se sobre o próprio passado e evoca o pai mestre-escola, as férias nas montanhas da Provence. Brincadeiras de crianças, a liberdade dos montes. Para facilitar a vida, o guarda, ex-aluno do pai, empresta a chave para que a família atravesse os jardins dos castelos e poupe tempo. Anos mais tarde, já cineasta famoso, Pagnol foi filmar na região, a produção alugou um castelo e ele reconheceu o castelo de sua mãe. A vida, o amor, a guerra, a morte. Morrem todos. A mãe, o amigo, o irmão. Morre o pai, que ficou solitário e Marcel dá seu testemunho de como foram felizes. Há tempos queria fazer esse post. Na ida para Berlim, viajando Air France, encontrei na Collection, como eles chamam, o díptico de Yves Robert. Revi os dois filmes e ainda trivi O Castelo. O jovem Marcel apaixona-se pela garota que faz gato e sapato dele. A princesa, loira e linda, tem uma diarreia. Caga-se toda. Nenhuma fantasia dura para sempre. A natureza das pessoas, mesmo aquelas que idealizamos, ou principalmente essas, termina por revelar-se. Lembro-me de, na época, há quase 30 anos, ter lido, acho que em Cahiers, uma crítica sucinta – o acadêmico Pagnol transformado em paisagens d’Epinal, ou seja, de cartão postal. Só sei que revi o díptico com imenso prazer, e uma ponta de tristeza. Philippe Caubère e Nathalie Roussel fazem o pai e a mãe, Joseph e Augustine. Julien Ciamaca é Marcel, aos 11 anos. Cinema narrativo. A arte de contar (bem) uma (bela) história. Chorei tudo o que tinha direito. Marcel, seguindo o cortejo fúnebre da mãe. O ruído da roda na pedra. Volto ao tema da morte, já presente em Cléo das 5 às 7. Não sou mórbido, nem necrófilo, mas cada vez me convenço mais. Não adiante querer ignorar, fugir. A morte é um dia que vale viver. E um dia virá.