As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Yara e o tempo (perdido?) do esplendor na relva

Luiz Carlos Merten

23 Dezembro 2018 | 09h37

O presidente eleito diz agora que quer governar para todos, mas seus bolsominions continuam soltos, e perigosos. Voltando do café, vi na capa de um jornal popular que cabeleireiro e seu marido foram agredidos verbalmente na Paulista, ele parou para tomar satisfações, o agressor puxou uma faca, matou e correu para o metrô. A homofobia segue solta, e covarde. Como diz Boulos – soltou o pitbull, agora quero ver prender. Pessoas conseguem ser piores que cães raivosos. Não sei por quê, mas fiz uma pausa e pesquisei pitbull na internet. Veio um vídeo no YouTube, com cão considerado agressivo e como ele se derrete ao receber um afago. Quase chorei. Estranho como comecei esse post. Meu assunto era outro. Estou em plena escala de folga de Natal, mas tenho ido todo dia ao jornal – irei hoje -, além de seguir normalmente com as entrevistas. Afinal, nessa época do ano praticamente não acontece nada na Cultura, só as estreias de filmes (e as mortes de artistas, Deus nos livre delas). Na sexta à noite, fui ao teatro (Procópio Ferreira) para entrevistar Mônica Martelli. Conversamos sobre seu filme com Paulo Gustavo – Minha Vida em Marte -, dirigido pela irmã, Susana Garcia. A separação está no centro da trama, e todo mundo tem suas experiências para relatar. Tem gente que lembra os momentos felizes, mas se quis separar é porque devia estar uma m… Eu concordo com a Mônica. O difícil na separação é o futuro, abrir mão de coisas sonhadas. Pensei muito nisso na sexta-feira, quando fui ver Yara. O filme de Abbas Fahdel estreia em janeiro. O diretor é franco-iraquiano, mas seu filme se passa num Líbano pacificado, no Vale de Qadisha. O lugar é espetacular, um dos mais importantes estabelecimentos monásticos cristãos primitivos do mundo. Abismos que parecem profundos, casas construídas nas encostas, com terraços que avançam para a paisagem. Uma garota e a avó, que passa o filme jejuando e rezando. Yara perdeu os pais num acidente. Não acontece nada. Nada? Tudo. O burro preso, a cachorra, Lassie. As cabras e as galinhas soltas, os gatos. E o gatão – o garoto – que irrompe na vida da jovem. É o romance mais delicado que me foi dado ver, recentemente. Avanços lentos. Uma eternidade até o toque das mãos nas sombras projetadas no chão. “Posso te dar um beijo?” Sempre sonhei, era uma coisa plural, ir ao Líbano, mas não a Beirute. Ao Líbano interiorano, profundo, como esse de Yara, em Becharre. O nome dela, graças ao eco, ecoa pelo vale. Desenha-se um conflito entre tradição e modernidade. Há um guardião, outro homem, um jovem mais conservador. Elias, o amado, vai partir para a Austrália. Gostaria que Yara o acompanhasse. É todo o conflito do filme. Vai, não vai? E o tempo que passa. O vento que agita as folhas das árvores, a água do córrego, as roupas colocadas para secar, a fileiras de formigas. Fiquei muito tocado pela experiência de Yara – pelo filme e suas entrelinhas, pelo muito que me trouxe, mas também por essa sensação de algo irremediavelmente perdido. É o grande tema de Abbas Fahdel. Yara e Elias nunca mais terão o esplendor da relva. Elia Kazan – Clamor do Sexo. Yara poderia ser meu último grande filme de 2018. Será o primeiro de 2019. Na quinta, 27, ainda estreia Emma e as Cores da Vida. Entrevistei Silvio Soldini ontem pela manhã, por telefone. Foi bom para mim, foi bom para ele. À tarde, a assessora me disse, via whatsapp da Lúcia, que veio um retorno da Itália. Silvio era contento. Anch’Io. Tenho meus momentos de dúvidas e incertezas, na vida como no cinema, mas eles passam. Ontem estava angustiado com o João de Deus, O Silêncio É uma Prece. O panteísmo de Yara, o silêncio do filme, o aparente imobilismo que não disfarça o mundo em convulsão – casas, escolas e igrejas abandonadas -, tudo mexeu comigo. O silêncio não deixa de ser uma forma de oração em Yara. José de Alencar, Iracema, 1865. Tudo passa sobre a Terra.