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XXL

Luiz Carlos Merten

18 de junho de 2015 | 02h45

LOS ANGELES – Há um embargo que me impede de fazer a crítica de Magic Mike XXL, que acabo de ver, mas o filme é bem interessante. Mais erótico e explícito nas coreografias (estilizadas) que o anterior. O que as mulheres querem? O que os homens lhes dão? Carinho, sexo? Existem mulheres no passado dos strippers, mas agora eles são ‘male entertainers’. Machos perfeitos, corpos form(ul)ados para o prazer de suas fêmeas – um desfile de peitos, bíceps, mãos dentro das calças e aquele vaivém da região pélvica que simula… Vocês sabem. Alguém poderá ver nesse universo varonil algum sintoma de homo-afetividade, mas acho que seria forçação de barra. De alguma forma, Magic Mike XXL me lembrou a peça de meu amigo Dib Carneiro que estreou no Rio na semana passada. Pulsões está no Teatro Poeira. Como não há um grande investimento publicitário e o elenco, embora talentoso, não é formado por nomes superconhecidos da TV, um pouco de boca a boca não faria nada mal ao espetáculo dirigido por Kika Freire (e que estreia em setembro em São Paulo). As funções recomeçam hoje. Vão lá. Acho legal que Kika tenha feito confiança no Dib, pedindo-lhe que escrevesse o espetáculo que queria dirigir (e com o qual sonhava há anos). No palco, a bailarina e o maestro, dois personagens completamente dependentes. Ela dança a música dele, ele vive através dos movimentos do corpo dela. Villa-Lobos, as Bachianas, canções de ninar. Nada é completamente esclarecido, mas se encontram num instituto psiquiátrico. São internos, cada um carregando sua dor. Ela, obcecada pela perfeição, matou… Há uma trama, uma história tênue e não linear, uma investigação que tanto é psicanalítica como ‘policial’. Tem até suspense. Lá pelas tantas, ele pode ser o médico e ela, a paciente. Lembrei-me até de O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais (e Alain Robbe-Grillet). O homem persuasivo retira do inconsciente da mulher o segredo que ela guarda. No filme de Resnais, era o convencimento de que, sim, haviam-se conhecido – e amado – no ano passado. Na peça, a catarse vem de um conceito arrancado ao pensamento da dra. Nize Silveira, que impulsionou Kika. ‘A loucura está profundamente ligada ao desamor. Só o amor salva alguém da loucura.’ A busca da perfeição, que move o artista, a bailarina, pode ser a base do seu tormento. No programa da peça, a diretora conta que, há 12 anos, se indignou vendo um filme em que o assassino era perdoado e o louco, não. Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood, um filme que muita gente ama, mas que, num momento, me paralisou e quase dissociou do grande ator e diretor. Clint remeteu Kika a uma leitura do inconsciente na pulsão (criativa). ‘Quando o inconsciente se manifesta, não se pode dizer não. É preciso encará-lo, enfrentá-lo, caso contrário..’ Dra. Nize deixou sua frase em aberto, como uma reticência. Kika, com a ferramenta do texto do Dib, completa o pensamento. Caso contrário, podemos mergulhar na loucura, ligada ao desamor. Só o amor constrói, nos salva/liberta da loucura. Parece banal, mas o texto poético do Dib, trabalhado como ourivesaria na encenação circense de Kika, virou um dos espetáculos mais belos e intrigantes que vi nos últimos tempos. A repetição de algumas falas (o recitativo resnainiano?) cria dúvidas, elimina certezas. Por que você olha tanto para minhas mãos? Mãos que afagam, que matam. Um espetáculo que não é comédia nem musical e, como drama – ou como investigação do inconsciente -, flerta mais com o minimalismo do absurdo beckettiano do que com o realismo. Tudo me encantou em Pulsões – as interpretações de Fernanda de Freitas e Cadu Fávero (ela é ótima, mas na segunda-feira, dia da apresentação para convidados, ele arrebentou), a direção musical de Marco França, a iluminação de Fran Barros, a cenografia e os figurinos de Teca Fichinski, tudo se combinou para criar um universo mágico, no limite da arte e da loucura.  Tudo é orgânico em Pulsões, mas acho lindo que Kika tenha confiado no Dib e ele tenha correspondido à expectativa dela. Atormentado até hoje pela traição/destruição de seu texto na montagem de Paraíso por Antônio Abujamra, Dib flerta com a própria criação no desfecho. Em outro texto, Depois Daquela Viagem, ele queria um par de asas que nunca foi para o palco. Nova frustração. Dib nunca falou dessas asas para Kika, mas ela as visualizou na sua leitura de Pulsões. A interação autor/diretora é total. Dois corações e uma cabeça. Duas cabeças e um só coração. Amei. Um espetáculo do tamanho dos bofes de Magic Mike – XXL. Extra extra large.