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Wim Wenders e as memórias de Cannes

Luiz Carlos Merten

17 de maio de 2020 | 20h27

Só mais um postezinho. Fiz um destaque para o jornal de amanhã sobre Paris, Texas, que terá sessão no Cineclube desta segunda, 18, às 23 h, no Arte 1. Ao escrever que o filme recebeu a Palma de Ouro de 1984, voltei ao álbum comemorativo dos 50 anos do Festival de Cannes. O júri que premiou Wenders era presidido pelo ator Dirk Bogarde, dos grandes filmes de Joseph Losey e Luchino Visconti, e integrado – vejam só – por Isabelle Huppert, Franco Cristaldi, Michel Deville, Stanley Donen, Ennio Morricone, Jorge Semprun. John Huston, que apresentava À Sombra do Vulcão na competição, recebeu um prêmio especial pelo conjunto da obra e sua extraordinária contribuição ao cinema. Só para lembrar – Huston não era benquisto na Cahiers de François Truffaut porque não tinha um estilo. Fui ler a crônica de Robert Chazal e encontrei que o escândalo daquele ano ficou por conta de Jacques Doillon, com as tórridas cenas de sexo de Jane Birkin e Maruschka Detmers em La Pirate. Maruschka não era mole. No ano seguinte fez Je Vous Salue Marie, de Jean-Luc Godard, e dois anos depois protagonizou a felação de O Diabo no Corpo, de Marco Bellocchio, na fase de codireção com seu analista, Massimo Fagioli. Em defesa do filme de Doillon, Jane foi radical. Disse na coletiva que a paixão pode não ser estética. “É como o vômito do bebê, ou o cocô na fralda. Não é muito legal, e se você não tem amor pode achar repugnante. Eu acho magnífico.” Fiquei folheando o álbum. Em 1983 – um ano antes -, a Palma foi para A Balada de Narayama, do japonês Shohei Imamura. Um Grande Prêmio de Criação substituiu o de direção e foi dividido entre Robert Bresson (L’Argent) e Andrei Tarkovski (Nostalgia). O júri era presidido pelo escritor Wlliam Styron, fresquinho do sucesso de A Escolha de Sophia no Oscar, no ano anterior. Os demais integrantes – Mariangela Melato, Henri Alékan, Souleymane Cissé, Serguei Bondartchuk. Na crônica do festival, Alain Beverini conta como Bresson, irritado por não haver recebido a Palma, descontou na imprensa – quando um fotógrafo lhe pediu ‘Mais uma foto’, ele simplesmentede jogou o diploma de vencedor no chão, e o pisoteou. Jean Chatel, jornalista de rádio, faz autocrítica. No último dia, o concorrente era um filme japonês que ele achou que não teria chance de ganhar. Foi ao Grande Prêmio de Mônaco. Narayama venceu e os ouvintes da Rádio France ficaram sem a crítica. O que me lembra a primeira Palma dos Dardenne, por Rosetta. O filme passou num único horário, às 11h30 da manhã. Havia alguma produção de Hollywood no horário. A brasileirada inteira foi ver. Eu fiquei com os Dardenne. Na hora H, só eu tinha visto Rosetta e os leitores do Estado leram a crítica. Desculpem pelo meu comercial, he-he.