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Warcraft e o futuro do cinema

Luiz Carlos Merten

25 de maio de 2016 | 20h21

PARIS – Pode ter sido ejaculação precoce, quando disse que gostei de X-Men – Apocalipse. Achei o filme OK, mas agora, cada vez que penso, ele vai ficando menor. Daqui a pouco, some da minha vida. A verdade é que os mutantes de X-Men não me entusiasmam. Gosto dos atores, mas até quanto a eles tenho minhas restrições. Jennifer Lawrence, por exemplo, é ótima, mas começou desse tamanhinho, e aí virou top star. Globo de Ouro, Oscar, Jogos Vorazes. A atriz tem de aparecer muito, mas a personagem não tem o equivalente ‘dramatúrgico’, e isso me cansa. Comparativamente, Warcraft – Le Commencement, o Começo, que vi agora à noite, me deixou bem sacudido. Em Cannes, algum diretor importante (quem foi?) disse que a linguagem do futuro é o videogame. Antes que alguém tenha um piti, quero lembrar que foi em Cannes, há 16 anos, que começou a revolução do digital, e quem poderia imaginar que, num período tão curto, iria adquirir tamanha amploidão? Só ouço falar que Angry Bird está arrebentando e, aqui na França, por experiência própria, posso dizer que Warcraft idem. Estamos falando em números, por enquanto. O game surgiu em 1994 e dois anos depois já era o mais vendido, em PC. Desde então, os números foram se multiplicando. No final de 2014, World of Warcraft já tinha vendido mais de 100 milhões de unidades. Trata-se de uma indústria realmente bilionária. Estamos há anos-luz de experimentos primitivos como Mario Bros. ou tentativas mais recentes, como O Príncipe da Pérsia – Areias do Tempo e Hitman 47, também adaptados de jogos. A originalidade de Warcraft está no fato de que o diretor Duncan Jones trouxe para o cinema, com atores, a linguagem (e o visual) do game. Os embates entre orcs e humanos batem na trilha aberta, tanto do ponto de vista técnico como estético, por Peter Jackson na saga de O Senhor dos Anéis. São filmes que ultrapassam a linguagem do naturalismo e do realismo para abraçar o mito. Mais para o fim do ano – a previsão é dezembro -, teremos outro filme baseado em game, Assassin’s Creed, de Justin Kurzel, com Michael Fassbender e Marion Cotillard, o trio de Macbeth. Como não sabia da existência do jogo, nem sei como nem por quê li o primeiro exemplar da série editada em livro. Devo ter comprado em aeroporto, como típica leitura a bordo, mas devorei o primeiro livro e todos os demais que foram surgindo. São bem escritos, bem estruturados e a orelha diz que o autor é um importante historiador, que se esconde por trás de pseudônimo (Oliverr Bowden). É o Terrence Malick, o J.D. Salinger (de O Apanhador no Campo de Centeio) da literatura de diversão. Só sei que, no primeiro, o herói correndo nas ruas e saltando nos telhados das casas de Florença, em pleno Renascimento, me lembraram os grandes filmes de aventuras de Riccardo Freda com Brett Halsey nos anos 1960 – As Sete Espadas do Vingador e O Magnífico Aventureiro. Pergunto-me se Justin Kurzel terá seguido essa via ‘clássica’ ou se terá feito, no cinema, a reinvenção estética do game, como Duncan Jones. Pode até ser que Assassin’s Creed venha a ser uma porcaria, mas tenho de admitir que minha ansiedade pelo filme é maior do que foi, no fim do ano passado, por Star Wars – O Despertar da Força, e o filme de JJ Abrams virou o fenômeno planetário que todo mundo sabe.