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Wajdi Mouawad, o retorno do filho pródigo

Luiz Carlos Merten

07 Novembro 2015 | 11h22

Fiz ontem uma pausa na Mostra para assistir ao espetáculo de Wajdi Mouawad no Sesc Pinheiros. Pretendo voltar hoje à repescagem, vendo O Culpado à tarde e amanhã, se quiser falar com meu editor, Ubiratan Brasil, sei onde encontrá-lo. Ele, com certeza, estará à tarde no Cinesesc para ver a versão restaurada de All That Jazz, de Bob Fosse. Vai gostar assim de musical…! Havia entrevistado Mouawad com uma garota da Folha por Skype. Ele não queria dar nenhuma entrevista. Concordou em dar uma para os dois veículos. Escrevi minha matéria da perspectiva das perguntas que fiz, não li a da concorrência. Não tenho esse tipo de curiosidade. Meu maior presente na Mostra talvez tenha sido um comentário do público. Todo dias via o logo do jornal, o outro – não dá para não ler. Um dia, ouvi a pérola – dá, sim (para não ler). Amei. Solos, o espetáculo de Mouawad, é belíssimo. O cara veio a São Paulo para apenas três apresentações. Na quinta, pelo que soube, havia pouca gente. Ontem, tinha mais, mas não lotou. Por favor, vejam hoje. Última chance. Todo mundo não vive pedindo para ser surpreendido? Vão lá… Peguei agora o programa da peça e li um texto de apresentação do próprio Wajdi Mouawad. Ele fala do escaravelho, inseto que se alimenta de excrementos de animais maiores que ele e retira da merda desses bichos a substância apropriada para a produção de sua magnífica carapaça. E diz que o artista é um escaravelho que procura, nas fezes da sociedade, os alimentos de que necessita para produzir as obras que fascinam e perturbam. O artista se alimenta da merda do mundo e dessa comida abjeta consegue, às vezes, fazer surgir a beleza. Emocionei-me muito com essa definição de Mouawad, o autor de Incêndios. Emocionei-me com Solos. Robert Lepage tem sido uma referência e uma inspiração para ele. Solos é sobre um estudante de sociologia do imaginário que tenta terminar sua tese sobre os solos de Lepage. Ele deve partir ao encontro do artista para uma entrevista, mas algo ocorre – seu pai entra em coma – e, a partir daí, vamos de surpresa em surpresa, que não vou revelar, para não tirar o impacto. Mouawad, que, além de autor do texto, também é ator e diretor, assimila duas influências/referências no palco. A de Lepage, claro, e o quadro O Retorno do Filho Pródigo, de Rembrandt. Dramaturgo nascido no Líbano, ele viveu na França e no Canadá. A questão da identidade é essencial no seu teatro. Quem sou? Quem somos? Mouawad escreve em francês. Incêndios é sobre a trajetória de uma mulher que tudo perde, mas elas escreve uma carta, e essa carta é a conquista de uma vida inteira. Solos é sobre a viagem de Harwan, o estudante, à cabeceira da sua língua materna. O retorno do filho pródigo. Não era ‘teatreiro’. Virei. Tenho tido ultimamente grandes emoções e surpresas, no teatro, com Pulsões, de meu amigo Dib Carneiro, a Tempestade de Gabriel Villela e as duas montagens (de O Homem Elefante e Brecht, Galileu Galilei) que me reconciliaram com Cibele Forjaz. Quatro! Agora, cinco. Solos é deslumbrante.