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Festival do Rio (2)/Violência da polícia é espelho da sociedade

Luiz Carlos Merten

03 Outubro 2015 | 12h08

RIO – Tive ontem um dia bem agitado com matérias, entrevistas. E hoje comecei mal. Havia uma cabine marcada pela manhã no Odeon. Cortei o cabelo e corri para o Centro – estou no Leme. A cabine havia sido cancelada. He, Ju… Quero hoje ver uma bateria de filmes a partir das 13 horas, uma da tarde, o que significa que tenho pouco tempo para postar. Há dias estou para falar de Operações Especiais, o longa de Tomás Portella com Cléo Pires. Tomás fez Qualquer Gato Vira-lata 1, que faturou 1,5 milhão de espectadores, mas não me fez a cabeça. Fui ver Operações sem expectativa nenhuma e me surpreendi. E aí me lembrei de como achei bacana o plano-sequência, digno do Martin Scorsese de Os Bons Companheiros, na abertura de Isolados. Gostei de ver, em Chico, o documentário de Miguel Faria Jr., todas aquelas referências ao apoio da classe média e setores populares à ditadura militar, na época do Ame-o ou deixe-o. Gostei de ver, embora me horrorizem – essa gente não tem noção do que foi a repressão? -, mas é o País em que vivemos e o Orestes de Rodrigo Siqueira também expõe essa espécie de reacionarismo brutal. Ontem, a capa do jornal O Dia era Polícia fora de controle. Policiais presos agrediram uma juíza e a Câmara de Vereadores do Rio votou uma lei que diz que policiais não podem ser presos por infrações disciplinares. É uma doideira, um estímulo à ilegalidade. O filme de Tomás Portella é sobre isso. Aparentemente, é sobre a dificuldade de uma mulher, Cléo, para se afirmar no universo ‘viril’ da polícia. A personagem, realmente, passa por todo um processo, faz muita m…, mas não creio que, à maneira de Thelma & Louise, Francis (é seu nome) refaça a trajetória do homem e se masculinize para ser aceita como ‘igual’, até porque não é. A pegada de Portella é outra, e foi o que me interessou. Operações Especiais é sobre como é difícil ser um policial honesto no Brasil. A polícia tem a cara da sociedade e a chave é a personagem de Fabíula Nascimento. Ela passa o filme arrotando que é honesta, não deve nada a ninguém, que a polícia só pega peixes miúdos – ou ‘inocentes’ como o irmão dela, pego na cama com uma menor, a quem chama de ‘piranha’- e deixa os poderosos impunes etc. E aí as coisas acontecem do jeito que o filme termina. Todo o elenco é muito bom. Cléo, Fabíula, Marcos Caruso, Thiago Martins, Fabrício Boliveira, Fábio Lago. Gostei da delicadeza dos brutos. De Thiago levando flores para a mulher que, no limite, irá traí-lo. Para Boliveira, que percebe, antes da própria Cléo, a força que ela tem. E me desculpem o comentário que pode parecer machista, mas esse Fabrício Boliveira não é fraco, não. Depois da tórrida cena com Íris Valverde em Faroeste Caboclo, ele pega agora a personagem da Cléo. Caraca, mano.