As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Vingadores, John Ford, Ingmar Bergman e a arte como consolo

Luiz Carlos Merten

05 de maio de 2019 | 10h23

Fui rever ontem Vingadores – Ultimato e, dessa vez, houve maravilhamento. O preço do heroísmo, o sacrifício. Por mais que recuse a ideia – gostaria de ser ateu, graças a Deus, no conceito de Luís Buñuel -, acho que, no fundo, sou mesmo cristão, e dos primitivos, das cavernas de Cristo. O Brasil está sendo desmontado, neste governo de talebans, como diz a Carta na edição desta semana, e nenhuma movimentação nas ruas. Minto – só as filas imensas de desempregados e a turma do f…-se, que só quer festa. Agora mesmo, estou vindo da Trigonella, onde tomei café da manhã, e o circo está sendo montado para a festa de Pinheiros. Let’s dance. O mundo mudou, houve – há – avanços consideráveis quanto a certas liberdades. Estava no balcão (na Trigonella). Na mesa de trás havia um par de gays. Contavam, suficientemente alto, as pegações da noite passada, para que todos pudessem ouvir. Enquanto tiverem plateias tolerantes, tudo bem. Ocorre que o Brasil é recordista de feminicídios, de ataques a gays, e trans, e negros. Condenados pelo gênero, pela cor da pele. Quase me sentei com as amigas para ver como estão vendo a situação do mundo, a do Brasil. Não vou nem ser preconceituoso a ponto de acrescentar que talvez não tivessem o que dizer. Só acho que se produziu uma mudança comportamental que a mim desagrada. As pessoas falam hoje tudo ao celular, e falam em público, sem censura. Negócios, sexo, privacidade, as pessoas nem notam mais. Outro dia, num elevador, um suposto executivo – de terno -, no viva voz, discutia estratégias e concluía. ‘Faz assim e a gente f… com eles.’ É a regra. F… com eles. Salve-se quem puder. Só espero que as amigas não topem com trogloditas para aumentar estatísticas da violência de gênero no País. Ia jantar ontem com Lúcia, Fabí e a mãe dela, a Cândida. Estava em casa, esperando, depois do Ultimato. Peguei um livro para ler. Liguei a TV, o Jornal Nacional. Corte de 30% no ensino superior, mas que atinge o ensino médio. Volto à capa da Carta. Olavo de Carvalho na retaguarda, o ministro Weintraub na vanguarda, o governo desfecha ofensiva ideológica e religiosa para desmontar as universidades públicas. Vingança elementar, meu caro Watson. Ninguém leva a sério, exceto seus acólitos, o soi-disant filósofo. Tratam-no como astrólogo. É desprezado na Academia. E o que ele faz? Vale-se do seu poder de influência para destruir a universidade pública. A tal ponto chegamos. Thanos, no Vingadores anterior, destruiu meia população da Terra, esperando que sobrassem os agradecidos (a ele). Como isso não ocorreu, Thanos quer agora recuperar as Joias do Infinito para completar o ciclo de destruição. Never! A frente unida das mulheres da Marvel não vai permitir que isso ocorra, mesmo que o sacrifício final seja de um homem, um super-herói, e o fecho seja com outro. O herói envelhecido, que decifrou o mistério da própria vida, como o Professor Isak Borg de Morangos Silvestres. John Ford, Ingmar Bergman. Será que só eu sou capaz de fazer essa leitura de Ultimato? Que seja. A grandeza (fordiana) dos derrotados. Os pequenos heroísmos do cotidiano. Chego até A Golondrina, o gesto supremo de amor, puro impulso, de Dani. Talvez, um pouco pela influência dessa dor que não se acaba, esteja vivendo num universo paralelo. Numa carta a Theo, Van Gogh diz que pintava para consolar, porque a vida pode ser muito dura, muito triste. Faz todo sentido para mim. A arte me tem sido um grande consolo.