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Luiz Carlos Merten

15 de abril de 2013 | 11h37

Nem sei qual era o ciclo, mas, ao descobrir que a Iracema de Jorge Bodanzky e Orlando Senna passava ontem à tarde no Cine Olido, resolvi rever o filme, que emendei com os vencedores do É Tudo Verdade e o documentário sobre O Iluminado, de Stanley Kubrick. De todos, o que mais gostei foi Mataram Meu Irmão, de Cristiano Burlan, que havia visto em DVD. Até comentei com ele – seu filme e o de Helena Solberg, A Alma da Gente, foram os nacionais que mais me interessaram (e tocaram). Ambos tratam da dor da perda – a do irmão, a do amigo Émerson, que os sobreviventes daquele grupo de dança da Maré lembram com tanta tristeza e carinho. E sempre a pergunta – por que? As condições sociais não explicam tudo. Há sempre o imponderável da natureza humana. A mulher lembra, aos prantos, que o marido pensava demais. O garoto da Maré também pensava grande. Privado do sonho, o projeto de dança, não teve forças e embarcou no tráfico. Confesso que, quase 40 anos depois, me decepcionei com Iracema. Na época, por retratar de forma realista a Transamazônica, que o regime militar queria transformar em cartão de visitas do seu Brasil grande, o filme provocava impacto, mas agora, tanto tempo depois, sua dramaturgia não me convenceu. Tudo é muito defensável, o reverso do milagre econômico, a ficcionalização da realidade brutal, o embate entre cinismo e inocência que serve de motor para o relato. Gostei do Tião de Paulo César Pereio, e Pereio é sempre ator dele mesmo, mas a questão da idade, que configuraria abuso sexual da menina – Iracema tem 15 anos -, ficou comprometida porque a guria, Edna de Cássia, parece muito mais velha. É curioso, porque no meu imaginário, Iracema, com sua trilha brega, se misturou com Amuleto de Ogum, de Nelson Pereira, seu contemporâneo. Gosto das cenas de bailão, das provocações de Tião para Iracema – ‘Tu é burra’ -, mas não creio mais que seja um grande filme. Ficou datado, para o bem e para o mal. O que me cansou – exauriu – foi o documentário sobre O Iluminado. Há um culto sobre o filme de Kubrick e ele é objeto de controvérsia/adoração justamente pela complexidade das leituras que as pessoas costumam fazer de suas imagens. É um filme sobre o holocausto dos índios, dos judeus, é a confissão de Kubrick de que realmente encenou a descida do homem na Lua, o que não significa que astronautas da Nasa não tenha descido no satélite da Terra. Na verdade, achei o inventário das lendas e interpretações das simbologias escondidas em O Iluminado um tanto arbitrário e o cara que mais fala sobre a farsa da Lua entusiasma-se com as próprias histórias e ri, nervosamente, na trilha, o que o aproxima estranhamente do sorriso insano de Jack Nicholson. Qual dos dois é mais louco? Confesso que achei muito mais interessante a releitura de De Olhos bem Fechados, tal como é proposta pela revista francesa Positif, numa edição que comprei em Paris, em fevereiro, a caminho de Berlim. De Olhos bem Fechados é sobre a maçonaria, cujos símbolos Kubrick distribuiu pelas imagens, mas o filme, tratando, entre outras coisas, de uma sociedade secreta, é sobre a Cientologia, para a qual ele perdeu a filha. A garota entrou para a igreja de Tom Cruise, rompeu com a família, fez uma viagem sem volta e Kubrick nunca se recuperou disso. Confesso que, de toda a história da Lua em O Iluminado – e no documentário de Rodney Ascher, Room 237 -, o que mais tive saudade foi de Capricórnio Um, o thriller de Peter Hyams sobre a caçada ao homem (Elliott Gould) que descobre que a aventura espacial é uma farsa da Nasa, que encena a descida em Marte em estúdio e o resultado imediato disso é que os astronautas se tornam ‘expendable’, sacrificáveis. Capricórnio é de 1978, alguns anos depois de O Iluminado, e gostaria de revê-lo para saber quanto dessas histórias também podem estar escondidas ali dentro, porque Hyams, afinal, foi jornalista, antes de virar roteirista e diretor.

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