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Viagens no tempo

Luiz Carlos Merten

26 de maio de 2014 | 08h37

PARIS – Existem um milhão de filmes e exposições que quero ver nestes dois dias em Paris, antes de voar para Florença (na quarta-feira). Mas, ontem, na chegada, depois de minha tradicional visita a Notre Dame, que estava lotada, fomos, Dib Carneiro e eu, à Cité du Cinéma (30 e tantas salas, uma extensa praça de alimentação) para ver X-Men – Days of Future Past. Gostei do título do novo Bryan Singer, Dias de Um Futuro Esquecido (não sei se tem o ‘um’), que dá sequência a A Primeira Classe, de Matthew Vaughn, que era melhor. A juventude de Magneto e Xavier, e agora Volwerine viaja no tempo para reencontrá-los jovens, e inimigos, de forma a evitar uma guerra que, no futuro, poderá destruir a humanidade (e os mutantes). James Cameron fez escola com seu Terminator, mas eu não me convenci muito com o filme, pirotécnico demais – e pouco espesso, dramaticamente – para o meu gosto. Menos complexo que o Super-Homem de Zack Snyder e o maravilhoso Capitão América 2, o filme retoma a vertente do anterior ao implicar Michael Fassbender no assassinato de John Kennedy, mas o que mais me impressionou foi a rapidez com que Hollywood se adapta às mudanças. Posto que Jennifer Lawrence virou uma estrela, após ganhar o Oscar, Raven passa a ocupar o primeiro plano da história. Bye-bye Halle Berry, que tem algumas cenas pontuais – uma participação desse tamanhinho -, e Halle, cada vez me convenço mais, foi vítima de alguma maldição do Oscar, como a que afligiu o Murray Abraham de Amadeus, de Milos Forman. Já fui a uma livraria, agora de manhã, para comprar a autobiografia de Dino Risi, Mes Monstres/Meus Monstros, e terminei comprando também a de Alexandra Stewart. Mon Bel Age. Alexandra, com Bernardette Laffont, que morreu no ano0 passado, foi outro ícone da nouvelle vague. Espero que a leitura me ilumine não apenas sobre Roger Vadim, François Truffaut, Jacques Doniol-Valcroze, Jean-Luc Godard, Arthur Penn, Otto Preminger, Leopoldo Torre-Nilsson, Marco Ferreri, Louis Malle etc – os diretores com quem trabalhou -, mas principalmente sobre seu Pigmalião, Pierre Kast. Foi ele quem fez, em 1959, o filme que deu título à autobiografia de Alexandra, uma canadense que, como Jean Seberg, também do outro lado do Atlântico, descobriu Paris no alvorecer da nova onda. Alexandra havia sido capa de Elle e Vogue. Pierre Kast fez dela a estrela de Le Bel Age. Minha lembrança dele é um pouco confusa, um autor a meio caminho entre a crueldade de Claude Chabrol, com quem Alexandra também trabalhou, e a dimensão literária de Alain Resnais. Como não era tão bom, a crítica – P.F. Gastal, o Calvero – o enquadrava na categoria ‘literatice’ e considerava seus filmes invariavelmente frustrados. Mas. sei lá, eu curtia aquele cara tão fora do esquadro de Hollywood, a Paris que ele me mostrava. Sempre achei triste que Pierre Kast, morrendo no mesmo dia de François Truffaut, tenha sido completamente eclipsado pelo outro. Os jornais deram páginas e páginas sobre Truffaut, que, claro, oferecia um interesse jornalístico maior, e eu só descobri a morte de Kast dias depois, e numa notinha de rodapé. Tenho curiosidade de saber o que Alexandra Stewart vai contar dele.

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