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‘Vertigo’?

Luiz Carlos Merten

07 de agosto de 2012 | 11h56

Arranjei tempo para dar uma olhada – finalmente – na lista de melhores de ‘Sight and Sound’, mas não no lin que vocês me propuseram. Coloquei no Google ‘Sight and Sound’ + 50 best movies ever e apareceu uma lista mais reduzida, de dez. ‘Sight and Sound’ não é nem nunca foi uma revista de cinema que me mereça muito apreço e eu, para dizer a verdade, nem respeito muito os c ríticos ingleses. Gostava de Alexander Walker e Robin Wood, cujos livros sobre Alfred Hitchcock, Arthur Penn e Claude Chabrol são de uma riqueza analítica que me deixa chapado. Wood era um fenômeno, um homem de cultura cuja erudição aparece en passant, nunca é um fim em si mesma. Suas análises fundamentam-se na psicanálise e na política para atingir o humano e o que ele diz da cena do assassinato na ducha de ‘Psicose’ é de uma simplicidade acachapante (e ao mesmo tempo explora possibilidades que ninguém avalia). Lembro-me de haver lido, não faz muito tempo, no necrológio de Wood – em ‘Cahiers du Cinéma’ –, que ele saiu do armário já numa fase avançada da vida e que isso liberou ainda mais análises no sentido da diversidade e da tolerância – da compaixão mesmo. Mas então quer dizer que ‘Um Corpo Que Cai’, Vertigo, é o melhor filme de todos os tempos, desbancando o bom e velho ‘Cidadão Kane’, de Orson Welles, que foi para 2.º? E onde foi parar ‘O Encouraçado Potemkin’, de Sergei M. Eisenstein, com a alegada maior sequência de todos os tempos, a da escadaria de Odessa? Entre os dez é que não ficou… Gosto de ‘Vertigo’ – seria louco, se não gostasse –, mas o filme não apenas não é, para mim, o melhor de todos os tempos, como não é nem meu (Alfred) Hitchcock preferido. Mas entendo o fascínio. O cult de Hitchcock prenuncia Alain Resnais, os conflitos de tempo e espaço e a memória, criando um mundo imaginário. Madeleine no parque das sequoias, admirável. A combinação de zoom e travelling avante na cena do campanário. E a trilha de Bernard Herrmann… A cena das sequoias é falsa, é uma representação dentro do filme. É Judy e não Madeleine, é parte do plano. A metalinguagem, segundo Hitchcock. E Kim Novak é uma deusa no papel, substituindo Vera Miles, para quem o mestre havia planejado o filme – e ainda bem que ela preferiu engravidar a fazer o agora best movie ever. Vera Miles não tinha a carnalidade exuberante de Kim, que não entendia a personagem e irritava Hitchcock com suas perguntas. ‘Era Uma Vez em Tóquio’, de Yasujiro Ozu, em 3.º; ‘A Regra do Jogo’, de Jean Renoir, 4.º; ‘Aurora’, de W.F. Murnau, 5.º; ‘2001 – Uma Odisseia no Espaço’, de Stanley Kubrick, 6.º; ‘Rastros de Ódio’, de John Ford, 7.º; “O Homem da Câmara’, de Dziga-Vertov, 8.º; ‘A Paixão de Joana D’Arc’, de Carl Theodor Dreyer; 9.º; e ‘Oito e Meio’, de Federico Fellini, 10.º. É uma boa lista, com grandes filmes, mas não são os ‘meus’ dez. Na verdade, dessa lista assino em baixo do Ozu, do Murnau, do Kubrick e do Ford como filmes que amo, embora reconheça a importância do número um e também do 2,  do 8, do 9 e do 10. Mas onde os meus Bergman(s), o meu Visconti? O próprio diretor de ‘Sight and Sound’, Nick James, diz que a votação reflete mudanças realizadas na cultura da crítica de cinema nos últimos anos. Mas é incrível como essas mudanças ainda são restritivas. O filme mais recente a integrar a lista ficou em 24.º,  ‘Amor à Flor da Pele’, de Wong Kar-wai. É a prova de que os críticos resistem  às mudanças. Por mais belo que seja ‘Amor à Flor da Pele’, ‘Felizes Juntos’ é mais ousado (até como elipse narrativa).