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Vertigens do cinema moderno (na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre)

Luiz Carlos Merten

23 de abril de 2019 | 00h05

De volta a São Paulo. Tive agora à noite mais um debate da série Estadão/Pandora, no Belas Artes. Foi sobre A Sombra do Pai, com a diretora Gabriela Amaral Almeida e os atores Júlio Machado e Nina Medeiros, que faz Dalva, a garota. Gosto muito dessas trocas, desses compartilhamentos. Gabi é ótima, forcei uma participação de Marco Dutra e ele também foi muito bom, refletindo sobre a preferência de ambos pelo cinema de gênero. Cada vez mais tenho vontade de criar um clube nos moldes do de Jean Douchet, em Paris. Encontros para debater filmes, mas meu sonho não é me prender aos filmes de arte – para isso já tem, lá vou eu fazer inimigos, coleguinhas analfabetos que cheguem. Quero discutir qualquer filme – A Maldição da Chorona, por exemplo -, inventando na hora os paradigmas que me interessa discutir. Deixo Eric Rohmer para os eruditos, que se repetem, repetem. ZZZzzzzz. Agora mesmo, em Porto Alegre, a Cinemateca Capitólio apresentava um ciclo intitulado Vertigens do Cinema Moderno. Vertigo, Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock, mas também A Lenda de Lilah Clare/Robert Aldrich, Férias de Amor/Joshua Logan, Sortilégio de Amor/Richard Quine, Blow-Up – Depois Daquele Beijo/Michelangelo Antonioni, Dublê de Corpo/Brian De Palma e Prelúdio para Matar/Dario Argento. Filmes aparentemente disparatados, mas aí você para e analisa. Descobre os elos, as conexões. Nada como uma boa curadoria que olhe os filmes, os diretores, os gêneros sem preconceitos. Quem me conhece e lê, sabe que nunca fiz uma crítica de Pinic. Citei cenas emblemáticas – a dança de Kim Novak e William Holden ao luar, Moonglow -, mas nunca fiz uma crítica formal pelo simples fato de que só conhecia partes do filme. Nunca o vira inteiro. Férias de Amor é um cult movie para a geração de Sérgio Augusto, Ruy Castro. Depois de vê-lo pude imaginar o impacto que teve para esses caras, nos anos 1950. William Holden, de peito nu, como o estrangeiro que seduz a Midge de Kim Novak. Rosalind Russell como a professora solteirona que o desmascara. O corpo ainda pode ter força, magnetismo, mas a cara de Holden já é passada. Jovem, nunca mais.’Bill’ Holden já havia sido o gigolô de Sunset Boulevard/Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder. Joshua Logan, com certeza, deve ter pensado nisso ao chamá-lo para fazer sua adaptação da peça de William Inge. O vagabundo que rouba a rainha da beleza do herdeiro da pequena cidade. Kim Novak que pega o ônibus e parte. Picnic alguma vez terá sido montada no Brasil? Realismo psicológico na vertente de Tennessee Williams. Daria um belo material para Gabriel Villela, Dib Carneiro poderia traduzir. No filme, Kim Novak avança para Holden com aqueles seios eretos que parecem disparar como exocets. Foi a jovem Kim quem inventou o modelito, não a septuagenária Sophia Loren, que, mesmo assim, impõe respeito. Logan teve um começo de carreira glorioso, com Férias de Amor e Nunca Fui Santa. Seus problemas vieram depois – Sayonara, Ao Sul do Pacífico, Camelot. etc. Talvez nem tudo seja perdido. Jacques Rvette defendia Pacific South, e Bali Ha’i tinha sua dose de mistério, embora Rossano Brazzi e Mitzi Gaynor fossem aflitivos no número Those Enchanted Evenings. Adorei minhas idas à Cinemateca Capitólio no fim de semana prolongado.

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