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Vendo-os ser: uma análise de artistas e modelos na tela

Luiz Carlos Merten

19 de fevereiro de 2019 | 15h45

Dr. Daniel, pneumologista na clínica de Drauzio Varela, virou meu clínico. Cheguei e ele já foi diagnosticando – vias altas. Sinusite. Olhou meus olhos, pediu que eu fechasse as pálpebras e tocou. Seu dedo no meu olho direito teve o efeito de um soco. Dr. Daniel é divertido – “Vou dar um coquetel ‘Levanta, Merten’ para que você não tenha de ver o Oscar (domingo) no hospital.” Amém. Já entrei no antibiótico. O que eu quero falar agora é de um livro – Watching Them Be. Star Presence on Screen, from Garbo to Balthazar. O autor é James Harvey, dramaturgo, ensaísta e crítico. Ele começa examinando ícones – Garbo, Dietrich e Sternberg, Bergman e Selznick, Wayne e Ford, Davis e Wyler, Charles Laughton. Na parte 2, ele analisa os realistas (De Niro, Nashville de Altman, Jackie Brown e os close-ups de Godard. e na 3, transcenders – Bergman, de novo, e Rossellini; as heroínas de Dreyer; e Balthazar. Harvey considera Au Hazard Balthazar/A Grande Testemunha o maior filme que viu na vida, o que é perfeitamente defensável. Lendo suas descrições, as cenas, quais madeleines, reavivam minhas memórias. Anne Wyazemky, antes de Godard. Maravilhosa. A morte do asno. Mas eu confesso que ainda sou mais Mouchete – A Virgem Proibida. Bresson não gostava de atores – profissionais e não profissionais. Precisava de corpos. Chamava seus atores de ‘meus modelos’. Esvaziava os modelos de toda intenção. O suicídio de Mouchette. Aquela é uma cena que volta e meia me vem. A forma absolutamente desdramática como rela rola sobre si mesma até cair na água, abandonando o mundo que só lhe causa desgosto. Tendo visto Greta e Ordet em Berlim, me bateram fundo as observações de James Harvey sobre Garbo e as mulheres de Dreyer. Garbo tinha aquele rosto de esfinge e não precisava expressar nada para que o espectador pensasse em tudo. O close final de Rainha Cristina – anos mais tarde, Mamoulian revelou que só lhe pediu que olhasse para a frente e procurasse não pensar em nada -, a morte de Camille em A Dama das Camélias e a ‘ressurreição’ de Inger em A Palavra. Não existe grandiosidade nenhuma na cena. É anti-espetacular. Johannes, que se toma por Jesus Cristo, diz ‘Levanta-te!’ e sem efeito nenhum, sem música, gestos lentos, os dedos que começam a se mexer, os olhos que se abrem, num tempo que parece infinito, o milagre realiza-se. A graça divina torna-se palpável, real. A quem interessar possa, recomendo o livro de Harvey (Faber and Faber Inc.) Às vésperas de mais um Oscar, vale lembrar o que diziam John Wayne e Marlene Dietrich. Ele – ‘Não atuo, reajo’, I don’t acto,react. E ela – ‘Interpretação é para o teatro. No cinema, quem constrói a personagem é o diretor. Só ele vê o todo quando se trabalha por partes.’

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