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Vendo-os ‘ser’, a presença dos astros na produção de Hollywood (e não apenas)

Luiz Carlos Merten

12 de julho de 2019 | 22h30

Tenho quase certeza de que já falei aqui de um livro de James Harvey, Watching Them Be, que analisa o que o autor chama de star presence on the screen, de Garbo até Balthazar (sim, o asno de Robert Bresson). A edição é de 2014 e eu provavelmente devo tê-lo comprado nos EUA, durante alguma junket. A edição é da Faber and Faber, Inc., de Nova York, e Harvey divide o volume em três partes – Icons, Realists e Transcenders. A primeira reúne ensaios sobre Garbo, Dietrich e Sternberg, Bergman e Selznick, Wayne e Ford, Davis e Wyler, e Charles Laughton, sendo que esse último, informa o editor, já havia sido publicado, com alguma diferença, sob o título de Quasimodo in America, pelo The New York Review of Books. A segunda privilegia Robert De Niro, Altman’s Nasville, Jackie Brown (and Others) e Godard’s Close-Ups. A terceira, Bergman e Rossellini, Dreyer’s Heroines e Balthazar. Teria de fazer uma pesquisa, mas ‘acho’ que resgatei o livro, que andava perdido no meio de outros e ontem, meio que por acaso, chamou-me a atenção a lombada, que não conseguia identificar, provavelmente arrumado na estante, se é que se pode dizer assim, pela Odete, a diarista, que tem verdadeira fobia por livros lançados pelos cantos. O curioso é que não consigo avançar. havia lido, e voltei a ler, os capítulos sobre a divina Garbo, Bergman e Selznick, isto é, Hitchcock, pulei Wayne e Ford e empaquei em Davis e Wyler, que é uma obra-prima pela perspicácia da análise do jogo da atriz e da inteligência de seu diretor. Harvey disseca dois handicaps que Bette Davis teve de vencer, ela não tinha o physique du rôle, ou seja, não era bonita o suficiente para ser estrela pelos padrões de Hollywood, e ainda triunfou num estúdio, a Warner, que privilegiava o elemento masculino, nos anos 30 – seus gângsteres. Pauline Kael certa vez observou que Davis não só parecia, como era mais inteligente do que se esperava que as mulheres fossem na época. E ela se impôs pela dureza – André Bazin dizia que pela ‘vontade’. A Warner simplesmente não sabia o que fazer com ela, e concordou, a pedido de Davis, em cedê-la a RKO para que fizesse a garçonete Mildred, de Servidão Humana, adaptado do romance de W. Somerset Maugham, em 1934. Foi um choque. Na cena mais forte, ‘Phil’ joga na cara dela – ‘Você me enoja!’ E Mildred/Davis cospe as palavras que nunca mulher alguma havia vomitado na cara de um homem, no cinema de Hollywood. ‘Você é que me enoja, seu aleijado monstruoso.’ Ele tem um defeito na perna. Criado o paradigma – a malvada -, ela ganhou o primeiro Oscar, por Dangerous, e logo o segundo, por seu primeiro filme com William Wyler, Jezebel. Davis, como uma southern belle, destrói sua vida ao ousar ir de vermelho num baile em que solteiras de boa família deviam vestir branco. O filme termina com sua apologia em branco, o uniforme enfermeira com que se redime na guerra. Outra parceria com Wyler, A Carta, e na terceira, Pérfida/The Little Foxes, baseada na peça de Lillian Hellman, ela deixou de ser a atriz comportada, que fazia o que o diretor queria, para impor sua vontade. Brigaram feito cão e gato – Wyler não estava acostumado a ser contestado -, mas Harvey garante que, na maioria das vezes, Davis conseguiu impor sua vontade e o mais impressionante, revendo-se hoje o filme, é que estava certa. Reli o texto, e é maravilhoso. Davis ainda faria, com Joseph L. Mankiewicz, All about Eve/A Malvada, e com Robert Aldrich, O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, outros filmes, e papeis, que consolidaram seu mito. Enquanto escrevo o post, com o livro à minha frente, releio trechos. Minha meta é um dia – quando? – chegar ao texto sobre Balthazar, de A Grande Testemunha. No meu imaginário de cinéfilo, a cena em que o burrinho, que carrega as dores do mundo, agoniza em meio a um rebanho de ovelhas, é das maiores do cinema. O cinema da transcendência de Bresson tem nela sua razão de ser.