As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Vem Buscar-me, pela filha do pai. E a nostalgia pelo que não vi

Luiz Carlos Merten

07 de julho de 2019 | 10h02

Êta título cifrado da porra. É para não lerem mesmo. Fiz uma varredura na minha casa agora pela manhã e não consegui encontrar o Imaginai! O livro organizado por Dib Carneiro Neto e Rodrigo Audi para a Editora do Sesc viaja pela obra de Gabriel Villela. Fotos e textos, textos e fotos. Memórias – eu mesmo assino um dos textos, sobre o diálogo entre cinema e teatro na obra do Gabriel. Japonesices, que também impregnam a cultura mineira, Serguei Paradjanov. Tudo isso porque fui ver ontem, no João Caetano, Vem Buscar-me Que Ainda Sou Teu. Fomos, numa alegre excursão. Orlando Margarido, Neusa Barbosa, o Vita, marido dela, e eu. Na saída, Orlando me arrastou para o Balcão – que não conhecia. Clovys Torres, um dos atores, e uma amiga dele, físio, juntaram-se a nós. Foi uma boa noite, apesar do frio. Não conhecia, exceto de ouvir falar, o texto de Carlos Alberto Soffredini. Sabia que foi uma das montagens que fizeram o nome do Gabriel, e um texto referencial para ele, pelo qual possui imenso carinho. Por isso procurei o livro, para ler o que ele dizia. Não encontrei. Em algum lugar estará, no meio dessas pilhas de livros e revistas. Odete, a diarista, tem a compulsão de colocar ordem na minha desordem e sumir com as coisas. Um dia, quando menos esperar, vou reencontrar o Imaginai! É metafórico. Sei que está aqui, mas não o encontro. A vida tem muito disso. Pessoas, afetos que você acredita que são próximos, intensos, e um dia descobre que não é nada disso. Fiquei pensando no que poderá ter sido a montagem de Vem Buscar-me pelo Gabriel. Um teatro mambembe que encena histórias populares. Coração Materno, Deus Lhe Pague. ‘Chega à choupana o campônio, encontra a mãezinha, ajoelhada, a rezar/Rasga-lhe o peito o demônio…’ Nos anos 1960, em pleno Tropicalismo, Caetano regravou o clássico de Vicente Celestino, dando-lhe nova roupagem. No fundo, era o que fazia o Soffredini, imagino que tenha sido o que fez Gabriel. Uma arte – teatro/música – de experimentação. A atração pelo popular, pelo melodrama, não em base realista, mas como pesquisa e revelação do universo poético contido em seu conteúdo. A nova montagem de Vem Buscar-me é dirigida pela filha do autor, Renata Soffredini, e interpretada por dois de seus netos. A mãezinha é Bete Dorgam, uma atriz que não conhecia, mas me contou o Clovys que tem história, não só no palco mas também na academia, como professora de teatro. Não creio que tenha visto ontem uma grande montagem. Renata, e é compreensível, pois se trata da filha de Soffredini, aproxima-se do material com certa reverência. É como se temesse, ou assim me pareceu, rasgar o próprio peito ao escancarar/dilacerar o melodrama. Mas gostei de ver. A raiz popular. O cordel, o mambembe. Não pude deixar de experimentar certa nostalgia – pelo que não vi. O Soffredini de Gabriel Villela. No próximo fim de semana, ele estreia no FIT de São José do Rio Preto o seu Auto da Compadecida. Segue investigando o teatro brasileiro e as formas populares de cultura. E eu me pergunto – por que o Auto? Ando distante do Gabriel, mas quero crer que seja pelo julgamento. A religião, o cangaço, João Grilo e Chicó lhe permitirão colocar no palco a alma picaresca brasileira, certas formas de alienação – de poder e dominação -, mas o julgamento será, imagino, mais uma tentativa de expor/desmontar a imensa farsa que se tornou esse país. Nosso – o deles – juiz impenitente…