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Varda na nova onda de Cléo (das 5 às 7)

Luiz Carlos Merten

09 de março de 2019 | 09h34

Ando desanimado, e isso se reflete no blog. Depois da quebra de confiança, nas relações pessoais e políticas, do ano passado, depois da dor, a vida veio, reaprendi a sorrir, a confiar. Mas o Brasil está difícil. Um presidente ignorante, que governa pelas redes sociais e é governado por elas. Uma população, pelo menos a que escreve para os fóruns dos jornais, de cortar os pulsos, por seu conservadorismo brutal. A norma é salvar as crianças da permissividade. Quais crianças? O ministro, aquele, quer prender menores de rua para averiguação, e isso os retrógrados não consideram obsceno. O golden shower dominou a semana, teve direito a twitter do presidente, rachou o País. E aí eu li um articulista no Globo dizendo que o coiso deu uma entrevista contando que, como todo mundo, fez sexo com bicho. Todo mundo quem, cara-pálida? É verdade? Em termos de perversão, não creio que seja menos defensável/condenável que o dedo no c… na marquise, que ‘Jair’, o celerado, transformou na regra do carnaval (para condenar a grande festa do povo brasileiro). Esse País está doente. Tem horas que penso em largar isso aqui e ir morar no Rio. Com toda a violência, todos os tiroteios, ainda sinto mais leveza no Rio, nos cariocas. Outro dia, um motorista cujo táxi costumo pegar aqui em São Paulo, resolveu me dar uma aula sobre escola sem partido. O PT, claro, era o culpado de tudo. A ditadura, como todo governo, teve coisas boas e ruins. De tanto ser repetidas, essas ‘verdades’ viralizam, banalizam. Socorro! Stroessner, o ditador paraguaio, acusado de corrupção e pedofilia, virou ‘estadista’. Salvem as crianças. A todas essas, corri ontem feito louco porque queria (re)ver Cléo das 5 às 7, no Belas Artes, no início da programação que o conjunto de salas dedica, neste mês de março, a grandes mulheres diretoras, ou grandes diretoras mulheres. Duas horas na vida de uma mulher, em Paris. Cléo, de Cleópatra, vai à taróloga na cena inicial e a mulher vê a morte, o câncer nas cartas. Cléo espera o resultado de um exame, acha que vai morrer. Por mais luminoso que seja o filme – fotografia em preto e branco de Jean Rabier -, o mundo lhe parece sombrio. Um tema bergmaniano, a proximidade da morte, o silêncio de Deus, que Varda trata de outro jeito, com uma mise-en-scène livre e cheia de fantasia. Cléo, a valquíria Corinne Marchand, anda sem rumo nas ruas de Paris, compra o chapéu (de perle, em pleno verão), toma o táxi, ouve o noticiário (sobre a Guerra da Argélia) e o relato da motorista que enfrentou seus passageiros, todos homens. Cléo volta para casa, brinca com o gato, canta acompanhada por Michel Legrand ao piano. Vai ao cinema e assiste, da sala do projecionista, ao curta com Jean-Luc Godard como apaixonado e Anna Karina como poupée, boneca. Depois de ver a intimidade de Agnès com Jean-Luc, entende-se melhor sua indignação porque ele não abre aquela porta em Visages, Villages. Marco da nouvelle vasgue, Cléo expõe a liberdade de tom e o conceito do movimento – o travelling como questão de moral, o som direto, a vida sem regras fixas, como improvisação. E o tempo todo, a Paris popular, homens e mulheres, cruza com a bela Corinne, olha para a câmera. Qu’est-ce que le cinéma? É Varda…