As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Vanessa, inferno e paraíso

Luiz Carlos Merten

13 Junho 2018 | 10h02

Havia comprado em Cannes a Studio com Vanessa Paradis na capa. La Métamorphose. A ex de Johnny Depp segue fazendo carreira na música mas investe pesado numa nova fase como atriz. Confesso que implico com os dentes de coelho de Vanessa, aquela fenda que ela tem entre os dentes da frente. A expectativa, inclusive na capa da revista, era que Vanessa, que já fizera história como apresentadora da abertura do festival – cantando Tourbillon em dupla com Jeanne Moreau, um momento mágico -, fizesse sua estreia na seleção oficial, com um filme na competição. Yann Gonzalez, Un Couteau dans le Coeur. Tanta especulação cerca a seleção oficial do maior festival do mundo. Thiérry, Thiérry (Fremaux), por que selecionaste essa m… monumental? O filme é um thriller na vertente de Dario Argente, e Vanessa faz uma produtora de filmes pornôs, em crise com a amante. Homens e mulheres em nu frontal, e alguns dos rapazes, escolhidos a dedo, são bem animados. O problema é que alguém está matando no set. Como sempre Le Figaro crava suas apostas no dia da premiação. Uma Faca no Coração ganhou duplamente – o pior filme da seleção de 2018 e a interpretação (de Vanessa) a pior da história do festival, ever. Por que estou voltando àquela Studio? Ah, sim. A revista dedica um dossiê a Daniel Toscan du Plantier, Homme à Films, lembrando o grande produtor que morreu em fevereiro de 2003, em plena Berlinale – há 15 anos. Em janeiro, eu havia participado de um encontro da Unifrance em Paris, entrevistando, cara a cara, o lendário produtor. Mal sabíamos que, um mês depois, ele se iria, num ataque fulminante. Toscan me contou histórias maravilhosas – sobre Maurice Pialat, Federico Fellini. Revelou seu projeto do coração que, infelizmente, morreu com ele. Uma nova versão de A Flauta Mágica, a ser dirigida por Coline Serreau. Toscan, homme à films, era também homme à femmes. Teve uma forte ligação com a jovem Isabelle Huppert, bancando a carreira dela. Ninguém discute o extraordinário talento da atriz, mas sem a alavanca de Toscan a história teria sido a mesma? Ele amava a ópera – Don Giovanni, Carmen, Madame Butterfly, Tosca. E Pialat. Escreveu em sua autobiografia que, se ele (Maurice) quiser, ‘nous vieillerons ensemble’, contradizendo o título do segundo longa do diretor, Nous ne Vieillerons Ensemble, com Marlène Jobert e Jean Yanne, de 1972, sobre as tribulações de um casal que não consegue viver junto nem separado. Na verdade, morreram quase juntos. Maurice Pialat, em janeiro de 2003; Daniel Toscan du Plantier, em fevereiro do mesmo ano.