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Valor de uso, o Brasil dos corpos de pretos

Luiz Carlos Merten

01 Dezembro 2018 | 16h28

Talvez tenha ido, sim, com muita sede ao poste, porque, afinal, meu mais belo espetáculo teatral do ano foi a Navalha na Carne Negra, direção e espaço cênico de José Fernando Peixoto de Azevedo sobre o texto de Plínio Marcos. A representatividade do artista negro no teatro brasileiro. Ao saber que Azevedo estava com nova montagem, Três Pretos – Valor de Uso, corri ao Sesc Pompeia. A Sociedade Abolicionista de Teatro faz hoje, sábado, 1.º, sua última apresentação. Três pretos passa-se num território marcado pelas lutas milicianas. Dois homens e uma mulher – um deles é Raphael Garcia, o Veludo de Navalha na Carne. Começam nus em cena. A mulher é estuprada continuamente pelos dois homens, até reagir. Ela é considerada traidora, por ter-se apaixonado por um soldado inimigo. O pai e o irmão são os responsáveis pelas violências. O casal foge, em busca de uma fortaleza mítica que remonta à época da Guerra do Paraguai. Tornam-se desertores, cavam em busca do petróleo que poderá libertá-los. As ações são gravadas em cena e projetadas em tempo real. Os textos são citações livres de Carlos Augusto Taunay (Manual do Agricultor Brasileiro, de 1839, reeditado em 2001) e Oswald de Andrade (Ordem e Progresso, in O Homem do Povo, de 1931). Sobre a imersão, o programa informa que esse projeto trouxe para o Sesc Pompéia debates acerca de obras produzidas por autoras e autores negros, por meio da atividade Pensamento Negro Brasileiro. Achei tudo muito plástico, muito forte, mas confesso que, face ao deslumbramento que me produziu Navalha na Carne Negra, não me satisfez. O texto, dessa vez, não possui a potência do verbo de Plínio Marcos. Queria mais. O Brasil das commodities, das mercadorias. Tudo se reduz a oferta, demanda, preço, inclusive e talvez principalmente os corpos de pretos. Valor de uso. Coisificação, destruição. Num outro contexto, essa ideia do Brasil como fronteira do necropoder também está no Estado de Sítio barroco que Gabriel Villela escavou no texto de Albert Camus sobre a Guerra Civil na Espanha, buscando representação para outros corpos escravizados (pela Peste, pela Morte). É interessante verificar como, para mim, tudo se (retro)alimenta. Teatro, cinema. Estou sempre recriando os meus filmes, as minhas peças. Gabriel Villela, como José Fernando Peixoto de Azevedo, não deixa de questionar essa utopia brasileira – de que, no fundo do poço, existe redenção. No fundo do poço, um calabouço. Luís Fernando Massoneto em seu texto no programa de Três Pretos. O próprio programa do espetáculo da Sociedade Abolicionista de Teatro é espaço de reflexão, lugar de fala. E tem tudo a ver com o empoderamento possível, realista de As Viúvas, de Steve McQueen. Gostaria de rever Três Pretos, mas não sei se consigo hoje. O Villela, que também quero rever, é mais viável – vai até 16.