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Utopias distopias, Gramado e o É Tudo Verdade

Luiz Carlos Merten

23 de setembro de 2020 | 10h23

Quem diria? Eu, que fui sempre tão refratário aos links, agora tenho de assistir aos filmes em casa, no notebook, para entrevistar diretores e fazer matérias. Jorge Bodanzky (e a mulher, Márcia), João Jardim, Guel Arraes, José Luiz Villamarim, esses só nos últimos dias. Somente ontem assisti ao duplo da competição do Festival de Gramado – Aos Pedaços, de Ruy Guerra, e o paraguaio Matar a Un Muerto, de Hugo Giménez. Assistindo ao filme do Ruy – não sabia nada sobre -, fiquei o tempo todo me perguntando quem seria o fotógrafo? Só nos créditos finais descobri que era o Sr. Dira Paes, Pablo Bayão. O esplendor do preto e branco, transformado em mise-en-scène, mas confesso que o Ruy, uma vez mais, me decepcionou. Um homem e seus fantasmas, a morte no fim do caminho, o suicídio, que Albert Camus considerava a única grande questão filosófica. Na contramão de outros grandes autores, Ruy continua complicando o simples. É estilo, fazer o quê? Gostei mais do paraguaio. Em 2006, quando fui jurado da Caméra d’Or, em Cannes, tentei ser o advogado do cinema latino, ou do íbero-americano. Defendi quanto pude o Hamaca Paraguaya, de Paz Encina, e o Honor de Cavalleria, de Albert Serra, mas os irmãos Dardenne, que presidiam o júri, não quiseram nem saber. O Serra, presos ao seu naturalismo, eles não conseguiram nem entender. Ecos de Hamaca em Matar a Un Muerto. Outra cabana na floresta, dois homens em vez do casal de velhos. Esperam os cadáveres, porque a função deles é enterrar esses mortos clandestinos, sem vestígio. O ano é 1978, o ditador Stroessner está no poder e a Copa do Mundo está rolando na vizinha Argentina, mas eles não conseguem acompanhar os jogos, porque o rádio não pega. Na nova leva de cadáveres, tem um que não está morto. E agora? Lembrei-me da melhor peça de Dib Carneiro Neto, Paraíso, que Antônio Abujamra – Deus o tenha – estragou, mas essa é outra história. Hoje tem mais Festival Brasileiro e Latinoamericano de Gramado, mas já anuncio que vou perder. Depois de ver o Patricio Guzmán no notebook, tudo o que quero é rever A Cordilheira dos Sonhos na telona, mesmo que seja a do Belas Artes Drive-in, no Memorial. Depois do deserto (A Nostalgia da Luz) e do oceano (O Botão de Pérola), Guzmán filma a pedra (a Cordilheira dos Andes, que delimita o Chile de Norte a Sul). Se as pedras falassem, o que diriam sobre a sangrenta ditadura do General Pinochet? Ele destruiu a ordem institucional, desorganizou a política e a vida sindical chilenas para não ter nenhuma oposição à implantação do neoliberalismo de Milton Friedman e sua Escola de Chicago. Vendeu o país. Criou enclaves estrangeiros na Cordilheira. Bodanzky chamou de UnB – Utopia Distopia seu belo documentário sobre a universidade que foi o sonho de Darcy Ribeiro e a ditadura fez de tudo para aviltar, destruir. Utopia distopia. Foi o que ocorreu no Chile. A utopia de Salvador Allende virou a distopia de Pinochet.

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