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Utopia distopia (2)

Luiz Carlos Merten

23 de setembro de 2020 | 19h32

Queria muito ir à abertura do É Tudo Verdade para ver o Patricio Guzmán – A Cordilheira dos Sonhos – na tela grande, mas fui atropelado pelo meu carona, que se havia esquecido do rodízio. Menos mal que agora vou ver os filmes da noite no Festival de Gramado, mas é um problema, porque as duas programações batem. Será preciso escolher, nos próximos dias. Já contei muitas vezes no blog que fui – fomos, Doris e eu – ao Chile de Salvasdor Allende um dois meses antes do golpe. Havia uma euforia no ar. Tudo parecia possível, mas, na verdade, a direita estava desestabilizando a economia para derrubar o governo. Os turistas tinham de comprar os escudos no câmbio oficial, US$ 10 ou 70 escudos por dia, mas no câmbio paralelo, nos hoteis, a gente era bombardeado por garçons, camareiras e ascensoristas que faziam esses US$ 10 valer até mil (1000!) escudos. Em toda parte havia feiras populares e shows de artistas de esquerda. A utopia virou distopia com o bombardeio do Palácioo de La Moneda e a morte de Allende naquele 11 de Setembro de 1973. Nos anos seguintes – 74, 75, 76 -, quando fomos à Bolívia, ao Peru e ols aviões faziam escala em Santiago, o clima era assustador. Todo mundo tinha de descer do avião e ficar numa sala guardada por militares armados de metralhadoras. Os caras eram intimidadores, podiam revistar quem quisessem, do jeito que quisessem. Voltei muitas vezes ao Chile – talvez nem tantas, mas algumas -, sozinho e acompanhado. A mais recente em janeiro do ano passado, no Santiago a Mil, que já conhecia desde que Gabriel, Villela levou seu Ricardo III, com os Clowns de Shakespeare. Emociona-me muito aquela estátua de Allende em frente ao La Moneda reconstituído. Ele com o pé direito no ar, caminhando rumo a um mundo mais igualitário. Um dos lugares de que mais gosto no mundo é a casa-museu de Pablo Neruda, em Valparaíso. Amo a trilogia do Guzmán – Nostalgia da Luz, O Botão de Pérola, Cordilheira dos Sonhos. O que houve no Chile me parece exemplar sobre os riscos que o neoliberalismo – o deus mercado de Milton Friedman – representam,para o Brasil.

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