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Uma tragédia argentina

Luiz Carlos Merten

11 de agosto de 2013 | 11h03

GRAMADO – E a competição do 41.º Festival de Cinema Latino e Brasileiro começou ontem com dois concorrentes, o argentino Puerta de Hierro – El Exilio de Perón e o brasileiro Éden. Gosto demais do filme de Bruno Safadi e ontem, já o conhecendo. viajei nas interpretações e nas pesquisas sonoras do diretor. Com todo respeito pelos grandes artistas e técnicos de som que o cinema nacional possui, raras vezes vi um filme tão rico em sonoridades, seja a música ou a trilha de ruídos. Safadi, inclusive, presta uma homenagem a David Lynch. Lembram-se da orelha decepada de Veludo Azul?  A orelha, aqui, está bem presa na cabeça de Leandra Leal e a câmera fica próxima como se fosse mergulhar naquele labirinto. E o João Miguel, de pregador religioso? E a leal Leandra? E o Júlio Andrade, ainda com seu visual de Paulo Coelho, que acaba de filmar? O filme argentino provocou a primeira polêmica do festival. Todo mundo fala mal da ‘hagiografia’ que o ator e codiretor Victor Laplace faz do lendário Juan Domingo Perón. Porta de Ferro era a casa em que ele viveu exilado e isolado em Madri e o filme retrata o que foram aqueles anos loucos. Perón une-se a Maria Estela, que vira Isabelita, ela passa a ser manipulada pelo ‘bruxo’ José Lopez Rega. Esoterismo e política – realismo fantástico, o cadáver embalsamado e violado de Evita é mantido na casa. Perón consulta-se com a ex-mulher. El Brujo faz suas mandingas para transferir a ‘aura’ de Eva Duarte Perón a ‘Chabelita’. E o general articula sua volta à Argentina e ao poder. Acho que o que está em discussão no filme é o caráter nacional, o próprio inconsciente coletivo dos argentinos. Como fecho, o tango, e não um tango qualquer, mas o ‘meu’ tango, o que considero o maior de todos, com La Noche Que Me Querias – Volver. Ouvi de Maria do Rosário Caetano que o filme é cinemão e decepcionante. Não polemizei. Talvez daqui a pouco, no debate. Mas a história já é tão fantástica que precisaria ser imaginada por um Gabriel García Márquez. Outro tratamento – qual? – seria… Excessivo? E, meninos, eu vi. No começo dos anos 1970,  minha ex, Doris Bittencourt, e eu íamos seguido à Argentina. Com o auge da repressão sob Médici e seu slogan ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’, enlouquecíamos com aquela movimentação e as multidões nas ruas. ‘Si Evita viviera, seria montonera.’ Revivi, de outro ângulo, aquele período. Perón faz a própria pasta (massa), está perdendo ou já perdeu a virilidade, com o câncer que lhe consome a próstata. Na ausência de herdeiros, pensa e escreve febrilmente para transmitir seu legado. Cria um vínculo com alguém de fora, Sofia, que será sua confidente. É uma relação bonita, a dos dois. E a atriz, lembrou-me José Eduardo Lourenço, tem um quê de Pina Pellicer. Pina quem? Como esquecê-la em A Face Oculta, de e com Marlon Brando,. No final, nada sai como Perón havia pensado. Justicialismo, uma tragédia argentina.

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