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Uma sexta-feira ‘carioca’, com Scorsese e Toquinho

Luiz Carlos Merten

05 de janeiro de 2019 | 11h00

RIO – Estou aqui desde quinta à tarde. Ao chegar, fui à sucursal para redigir a capa de sexta, sobre Rodrigo Teixeira. Ontem, tive um inédito dia de férias. É curioso quando se está sozinho. Você faz o que dá na telha sem ter de negociar nada nem dar satisfações a ninguém. Mas tem seus inconvenientes também. Ontem poderia ter morrido, e teria sido ridículo. Ia morrer na beira da praia. Exceto quando era criança, acho que nunca fui ao mar, no Rio, talvez alguma vez com Dib Carneiro, que adora praia, não lembro. O problema é que a perna não tem firmeza na areia molhada e, no repuxo, eu caí nas duas ou três vezes em que entrei na água. Em todas precisei de socorro para me levantar, até que me dei conta de que já estava ficando inconveniente, com um monte de gente preocupada e pronta a intervir para salvar o velhinho sem noção. Tem uma retrospectiva de Martin Scorsese no CCBB. Fui ontem rever um de seus primeiros filmes, Boxcar Bertha, Sexy e Marginal, com Barbara Hershey, produzido por Roger Corman, o homem que nunca perdeu dinheiro no cinema, fazendo filmes (bons) a troco de nada. Antes, depois do almoço, voltei ao Museu de Belas Artes para rever a exposição sobre a representação de São Francisco na pintura dos mestres italianos. Embora sejam 21 quadros, 20 de museus da Itália e um de um colecionador dos EUA – e mesmo que sejam assinados por Giotto, Ticiano e Perugino -, creio que poderia passar o resto de minha vida contemplando o Francesco de Guercino, seu rosto, apenas, em êxtase e com um olho tão brilhante que parece que vai rolar uma lágrima. Teria de fazer análise ou falar com o outro Francisco, o papa, Cardeal Bergoglio, para tentar descobrir porque aquele quadro mexeu tanto comigo. Mas voltei ontem por causa da visita virtual à Igreja de São Francisco, em Assis, que integra, como bônus, a exposição. A gente entra virtualmente na igreja e existem várias possibilidades de viajar nos quadros em seu interior, mas adorei a vista do alto, o plongê, que permite percorrer a nave na posição de um observador numa grua que se move horizontalmente, olhando para baixo. Não tenho problemas com altura, até já saltei de para-quedas, mas nunca experimentei aquela espécie de vertigem. Buscava meus pés, que obviamente não via, e isso criava uma instabilidade muito excitante, como se estivesse num parque de diversões. Saí dali e corri para o CCBB, e depois, porque tinha passado anteriormente pelo Rival, fui ver o show de Toquinho. Toquinho! Quando nos casamos e compramos nosso primeiro toca-discos, Doris e eu ouvíamos sem cansar… Vocês vão ver – ‘Enquanto o mar inaugura/um verde novinho em folha/argumentar com doçura e uma cachaça de rolha…’ Tarde em Itapuã! O formato do show era pocket, informal. Toquinho, o banquinho e o violão – a maioria ele tocou de pé -, conversando com a plateia. Histórias de Vinicius de Morais, claro, Tom Jobim, Chico Buarque. Não quero ficar com esse papo de velho, mas que diferença do Show da Virada! Lá todo mundo era herdeiro do Genival Lacerda – lembram? “Ela deu o rádio…’ Aqui, uma sutileza só. E o Toquinho chamou Malu Rodrigues, que estava na plateia, e ela cantou Se Todos Fossem Iguais a Você. Tive a minha epifania, mesmo que Malu, que vem dos musicais, cante para fora, vozeirão (afinadíssima, há que reconhecer). Achei interessante, porque pouco sabia dessa atriz e cantora, mas justamente pela manhã, ligando para a (assessoria) Febre para saber das novidades, conversamos, Cláudia Rodrigues e eu, sobre o próximo lançamento de Minha Fama de Mau, sobre Erasmo Carlos, no qual ela está, e com destaque. Que dia! Jantei, bebi, Voltei para o hotel e li um pouco – a biografia de Jorge Amado, que, duplamente, por ser comunista e pelo sincretismo religioso, deve estar no índex do novo governo, e da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. Estou achando a biografia ótima, escrita, por Joselia Aguiar, num estilo que lembra o próprio Jorge. Já que citei a ministra Damares, imagino que a frase dela, menina veste rosa, menino veste azul, esteja repercutindo nas redes. Pode ser desagravo, mas nunca vi tanto homem como ontem, de rosa. E, se a ministra teme que a cor defina tendências que ela reprova, gostaria de ter tido um celular – eu! – para fotografar um moleque de camisa rosa e a namoradinha de short azul que estavam mandando ver, uma afronta à família, mas uma beleza em termos de vitalidade. Ah, juventude. Divino Tesouro, como no filme de Ingmar Bergman.