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Uma pequena digressão sobre o deus caído, Harvey Weinstein

Luiz Carlos Merten

04 de novembro de 2017 | 11h39

Lembro-me perfeitamente. O espanto daquela capa pôster. A primeira que vi de um jornal. Os Diários e Emissoras Associados de Assis Chateaubriand, o Chatô, promoviam o concurso Miss Brasil e a capa anunciava que Ieda Maria Vargas, a Miss Rio Grande do Sul e Miss Brasil, havia vencido o concurso internacional em Long Beach (tenho certeza de que era lá). Ieda é Miss U! Lembrei-me disso porque na revista Monet deste mês há uma reportagem sobre a 66.ª edição do concurso de Miss Universo, que se realiza no domingo, 26. Fui ler o texto – curiosidade! – e encontrei que Donald Trump, quando possuía a marca, era rei de invadir os camarins para ver as misses seminuas e fazia piada sobre dormir com elas. Mas nenhuma apareceu – ainda! – para acusar o presidente dos EUA de assédio. Se tivesse lido antes talvez acrescentasse a informação na capa de quinta do Caderno 2. Não quero entrar no mérito, mas no passado tentei entrevistar Harvey Weinstein, numa época em que diretores brasileiros, hoje internacionais, estavam se aproximando dele. O cara era inatingível, pedi a intermediação. Ninguém levou adiante porque estava todo mundo babando no cara, pensando nas próprias carreiras. Em maio deste ano, gostei muito de um filme que integrava a seleção de Un Certain Regard. Uma Thurman presidia o júri. O filme em questão, Wind River, ganhou o prêmio de mise-enscène (direção). Estreou nesta quinta, 2, com o título de Terra Selvagem. Havia entrevistado o diretor e roteirista Taylor Sheridan e os atores Jeremy Renner e Elizabeth Olsen. Creio que até contei a história de que, depois da entrevista, fui tomar um sorvete na Haagen Das, em plena Croisette, embora não seja muito chegado em gelatos. (Tem uma sorveteria na esquina da minha casa que é o maior sucesso e na qual nunca entrei.) Encontrei a Elizabeth – You, again! -, que foi muito simpática e até me deu beijinho na despedida. A questão é que Taylor Sheridan não esperou a premiação. Voltou para os EUA. Harvey Weinstein, como produtor/distribuidor, subiu ao palco da Salle Debussy. Uma Thurman, do clã Tarantino, que é cria dos Weinstein, em nenhum momento o tratou como a um cara de quem se deve manter distância. E Harvey leu, no celular, o agradecimento de Taylor Sheridan. OS EUA sempre se comportaram e continuam se comportando mal com os nativo-americanos. É nosso dever como artistas denunciar, etc e tal. Harvey acrescentou algumas palavras dele. Duras palavras em defesa dos índios. Foi aplaudidíssimo, por mim, inclusive. Quanto tempo faz? Cinco meses, quase seis. O quadro mudou. Harvey Weinstein virou um monstro. Não duvido que seja. Mas seria muito interessante tentar entender, dramaturgicamente, a cabeça desses homens. Weinstein, Trump. Esse último é, sempre foi, um escroto, mas duvido – teoria da conspiração! – que o FBI já não esteja a postos para evitar possíveis denúncias contra o homem mais poderoso da Terra. Trump, como bilionário, já devia se sentir um deus e, por isso, invadia camarins, fazia piadas. Harvey Weinstein também devia se sentir assim, como se tudo fosse possível para ele. O fazedor de Oscars. O Paciente Inglês, Shakespeare Apaixonado, O Discurso do Rei… Em tempo – Terra Selvagem é muito bom. Neve e silêncio, silêncio e neve. Uma agente do FBI une-se a xerife local para investigar o estupro e assassinato de uma garota índia numa reserva. A agente, por ser mulher, é desrespeitada pela cultura machista, a mesma que matou a garota. Ainda não consegui publicar as entrevistas, mas espero fazê-lo logo. E, por favor, vejam Wind River – Terra Selvagem. Vai, como se diz, valer a pena.

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