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Uma jovem tão bela…

Luiz Carlos Merten

29 de julho de 2013 | 17h35

Descobri somente agora, mas na sexta, quando revia Le Skylab, de Julie Delpy, Bernadette Laffont, que faz a matriarca no filme, já havia morrido na quinta, de complicações cardíacas, em Nimes. Bernadette Laffont! Em maio/junho, após o Festival de Cannes, entrevistei-a em Paris, durante os encontros do cinema francês promovidos pela UniFrance. Foi uma entrevista bem legal, que eu ainda esperava para publicar. Falamos basicamente sobre Paulette, o longa de Jérôme Enrico, filho de Robert, que fez mais de um milhão de ingressos e colocou Bernadette, aos 74 anos, na linha de frente dos sucessos de bilheteria do cinema francês contemporâneo. Paulette é uma velha que sustenta a família com o dinheiro que ganha no tráfico. É racista a ponto de não gostar do próprio neto, um garoto negro, mas paradoxalmente, ela cuida dele, e cuida com todo cuidado, devido ao impedimento dos pais do garoto. Contei a Jérôme sobre o sucesso de seu pai aqui no blog, quando falamos de Os Aventureiros e da trilha de François de Roubaix. Jérôme me disse que tem a convicção, e me deu seus motivos para isso, de que o pai, morto em 2001, teria gostado de Paulette. Bernadette parecia ótima e, embora, como ela me disse, não fosse saudosista, conversamos muito sobre seu começo na nouvelle-vague, nos primeiros filmes de François Truffaut (Les Mistons) e Claude Chabrol (Le Beau Serge/Nas Garras do Vício e Les Bonnes Femmes, que ela definiu como um filme adiante de sua época). Bernadette tem uma das mais extensas filmografias do cinema francês.  Fez não sei quantos curtas, quase 20, mais de uma centena de filmes e outro tanto de telefilmes, e ainda teve tempo e disposição para fazer muito teatro, incluindo Diálogos da Vagina, peça com a qual ficou anos em cartaz. Me emocionei ao vê-la falar, no presente, como se estivessem vivos, de Chabrol, de Truffaut e de Jean Eustache, com quem fez outro filme farol, A Mamãe e a Puta. Há uma cena de Le Skylab em que a netinha vai dar um beijo de boa-noite em vovó, para garantir a despedida, caso ela morra durante a noite. Bernadette faz a cena com tanta graça. Essa mulher foi linda, um furacão de sensualidade. Não foi por acaso que Truffaut fez dela a protagonista absoluta de Une Belle Fille comme Moi, Uma Jovem tão Bela como Eu, em 1972. De repente, é como se estivesse dando adeus a um ente muito próximo, e querido.

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