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Uma injeção de ânimo, por favor

Luiz Carlos Merten

28 Outubro 2018 | 23h22

Não vou mais falar do ano duro, difícil, nem da dor física, nem do sentimento de abandono. Tudo isso está passando – tudo passa sobre a Terra, o fecho de Iracema, José de Alencar. Mas confesso que, hoje à tarde, chorei. Sempre tenho um sentimento de euforia quando voto e, apesar das reservas de Spike Lee – leiam o post ‘Fuck John Ford’ -, diante da urna eletrônica penso sempre na lição de democracia de O Homem Que Matou o Facínora. Hoje, ao votar, me deu um engasgo. Quem sabe daqui a quatro anos – se houver quatro anos. Para mim, para o Brasil. Estava represando a emoção, a tristeza. Ao conversar, na redação do Estado, com Antônio Gonçalves Filho – sobre filmes da Mostra e o estado do País e do mundo -, a represa se rompeu e tudo o que estava travado em meu peito veio numa enxurrada. Chorei. Estava contando para o Toninho como, às vezes, me arrependo de ser tão cabeça dura. Se pelo menos fizesse como os outros e gravasse as entrevistas. Entrevistei Fernanda Montenegro na sexta-feira e ela me disse coisas tão lindas sobre o respeito e admiração que sente por mim – por mim! – que eu gostaria de ter aquelas palavras gravadas como um alento para os momentos como esse que vivi à tarde. Nesses últimos meses me jogaram na cara que eu não tinha importância, que não tenho respeito pela alteridade, que não sei ouvir o outro, etc. Vou sobreviver a tudo isso, ao dia de hoje, não sei por quanto tempo, mas vou. E o Brasil acho que também vai sobreviver, se não persistir a cultura de ódio. Vai ser duro pacificar esse País, até porque, se o superministro da área econômica do presidente eleito, Paulo Guedes, fizer metade do que promete o futuro que se desenha é apocalíptico. Entrevistei Fernando Solanas, que, além de cineasta, é político e, como tal, preside o comitê de meio-ambiente do Senado da nação, e ele me fez um relato terrível da pobreza cada vez maior, da exclusão que grassa e da austeridade que ainda vai piorar muito por causa do acordo com o FMI. Vá chorando, Argentina, que caiu no conto do salvador. Tem gente que jura que 2019 será pior que 1964 no Brasil. Para mim, com certeza, porque em 64 era jovem e a juventude, por natureza, é destemida. Aos 73, fica tudo mais difícil, mesmo que não me acovarde e ainda mantenha o ritmo e a disposição de trabalho. Mas a verdade é que me senti hoje solitário como poucas vezes. Uma injeção de ânimo, por favor. Mano Brown na veia. Amanhã, tem a cabine de Roma na Mostra, mas vou ter de ver o Alfonso Cuarón na quarta à noite, com o público. Meu editor quer que eu veja o Freddy Mercury, Rapsódia Húngara, que estreia na quinta, 1.º. No mesmo dia espero estar no Rio, para o festival. Encontrei no outro dia o Rodrigo Teixeira, que promete um monte de (pré)lançamentos e convidados importantes (como Olivier Assayas) no Rio. Estão vendo? Já me animei. Ou então sou, para mim mesmo, um fingidor como o de Fernando Pessoa. Há esperança – tem de haver.