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Uma história que já tem 120 anos

Luiz Carlos Merten

28 de dezembro de 2015 | 09h52

PORTO ALEGRE – Às vezes penso em assinar o Filme B para estar sempre atualizado com estatísticas de rendas e bilheterias, que, afinal, não deixam de fazer parte das informações que compõem meu universo de jornalista de cinema. Leio em Zero Hora que, pelo 11º ano consecutivo, o mercado cresceu. O Brasil deve fechar 2015 com 170 milhões de ingressos vendidos ou cerca de R$2,25 bi arrecadados nas bilheterias, 12,8% a mais que os números do ano passado. Os blockbusters ditaram as regras e Vingadores – A Vingança de Ultron e Velozes e Furiosos 7 foram os filmes mais vistos no Brasil. Nos EUA, o supercampeão de bilheterias do ano foi Jurassic World. Estava tentando descobrir qual foi o share, a participação brasileira no próprio mercado, mas a reportagem do jornal não informa. Volto hoje à tarde para São Paulo. Amanhã termina minha folga na escala de fim de ano e vou tentar descobrir esses números no Estado. Sei de colegas que se aborrecem com essas informações. Como virgens no bordel, acham que cinema é arte, não indústria, e que o sucesso, quantificado, viola seus princípios. Zé Simão, a única coisa boa da concorrência, tem razão – Nóis sofre mas nóis goza. Por falar na concorrência, coloquei Chatô, de Guilherme Fontes, no topo da minha lista de melhores do ano e fecho 2015 sem fazer nenhuma piada com Sérgio D’Ávila, que escreveu artigo na Folha destruindo o filme. Como não li, posso comentar sobre o que informavam o título e o olho da matéria. O filme é incompleto, o tropicalismo é de araque etc. A síndrome Folha. Só eles sabem o que é tropicalismo. Ai, que cansaço, como diria Macunaíma. Estava tentando me lembrar em qual Festival de Cannes o Sérgio foi enviado da Folha e assim compartilhamos a permanência na Croisette. Trocávamos ideias, vejam só. No exterior, ‘eles’ melhoram o humor. O cara virou poderoso na concorrência, espero não chegar na situação de ter de bater na porta dele, pedindo emprego – aos 70! Mas larga de ser preguiçoso, Sérgio. Chatô não tem uma narrativa tati-bitati do tipo que entrega tudo de bandeja. O filme exige, digamos, um pouco de participação do espectador. Se eu consegui fechar um raciocínio completo sobre o filme, tu também consegues. E hoje é uma data especial – 28 de dezembro de 2015. Completam-se 120 anos da histórica primeira sessão de cinema, quando os irmãos Lumière exibiram seu invento, o cinematógrafo, com aquela sessão pioneira realizada no Éden, a primeira sala cinematográfica do mundo, em Lyon. A primeira sessão de verdade, com ingresso pago, ocorreu no Grand Café de Paris, mas, para a comemoração histórica, considera-se a exibição de Lyon. A chegada do trem na estação de La Ciotat, 28 de dezembro de 1895. O pai era fotógrafo e possuía uma fábrica de películas fotográficas. Os irmãos Pierre e Auguste eram engenheiros e não criaram o cinematógrafo. A máquina de filmar e que também era projetor havia sido inventada por Léon Bouly em 1892, mas ele não a patenteou, o que os Lumière fizeram anos mais tarde, acrescentando certos ajustes à máquina, para não dizer que simplesmente se apossaram da ideia do outro. Conta a lenda que os Lumière consideravam o cinematógrafo um invento puramente científico, que havia resolvido o problema da imagem em movimento, mas não viam utilidade comercial nele. Teriam, inclusive, tentado desencorajar Georges Méliès, quando ele, percebendo que poderia incorporar o cinematógrafo a seus números de mágica, tentou adquirir os direitos de utilização. O cinema nasceu, dessa maneira, documentário, ou como registro de atualidades com os Lumière, e virou fantasia com Méliès. Certo? Em parte. A chegada do trem, a saída da fábrica, mas em L’Arroseur Arrosé, sobre o cara que rega as plantas e termina molhado, os Lumière já contam uma anedota. Com a Viagem à Lua, de Méliès, o cinema realmente começa a sonhar. Passaram-se 120 anos e o cinema consolidou-se como arte e indústria. E, sendo indústria, desenvolveu um mercado que só cresce – os números no começo do post -, mesmo em meio à crise. Em 1995, no ano do centenário, Agnès Varda fez um filme comemorativo em que o cinema era um velhinho interpretado por Michel Piccoli. Agora, 120! Nem Manoel de Oliveira viveu tanto, e morreu este ano com 106. Já vivi 70 anos desses 120, sete dessas 12 décadas. Espero que o cinema não cesse de me surpreender.

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