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Uma festa de cinema

Luiz Carlos Merten

28 de maio de 2016 | 09h35

De volta a casa. Se ainda estivesse em Paris, cinco horas à frente, estaria agora vendo a versão do diretor de Cleópatra. O filme do qual Joseph L. Mankiewicz não gostava nem de dizer o nome. Sua Cinderela do Nilo – 4h11min. E, com meu apetite por clássicos, iria emendar com La Viaccia, Caminho Amargo, de Mauro Bolognini, num ciclo dedicado a Claudia Cardinale. Depois, quem sabe, no Reflet Medicis, o filme da noite de Un Certain Regard, Cannes à Paris. Cheguei e tomei um choque. Tudo o que está sendo feito, vocês sabem do que falo, é para salvar o Brasil. A quantidade de brasileiros na fila da imigração e no Duty Free me deram a impressão de que estamos (re)vivendo um boom econômico. O povo consumia enlouquecidamente. E claro que não mistura – arroz com feijão, mas… Supérfluos! Eta, mundo bão. Meu colega Antônio Gonçalves Filho, que é o maior colecionador de trilhas que conheço, deve ter a de Guerra e Paz, a versão de King Vidor. Que bela transcriação – o rei Vidor não traiu Tolstoi, mas o reinventou, e com um troque de Stendhal. Revi o filme ontem e, por mais que o que visse na tela me enchesse os olhos, em mais de um momento fechei os olhos – não para dormir, mas para saborear a trilha de Nino Rota. P… filme bom, e a trilha… Genial! Fiz uma pesquisa e descobri que Guerra e Paz, coproduzido por Carlo Ponti e Dino DeLaurentiis, ganhou o Globo de Ouro de filme estrangeiro, embora seja falado em inglês. Imagino que deva existir uma versão italiana. Mario Soldati dirigiu as cenas de batalha, e de novo dirigiria com Yakima Canutt e Andrew Marton a célebre corrida de bigas de Ben-Hur, de William Wyler, rodado em Roma, como Guerra e Paz. Saí do cinema com aquela trilha no ouvido e tinha tempo para só mais um filme. Não sei se fiz a melhor escolha. Fui ver Pericle il Nero na mostra Un Certain Regard em Paris. O livro tornou-se cult. É de Giuseppe Ferrandino, que o publicou sob pseudônimo, Nicola Calata. Stefano Mordini dirige e o filme foi coproduzido pelo ator que faz o protagonista, Riccardo Scamarccio, mais a mulher dele, Valeria Golinbo e os irmãos Dardenne, Jean-Pierre e Luc. Todo mundo produzindo. Péricles é soldado de Don Luigi, um chefe criminoso que tem uma rede de pizzarias. Sua função é litetalmente fare il culo dos inimigos do chefão, que o treinou para isso. Mas Péricles pisa na bola, acha que cometeu um assassinato e foge. É um bruto, não muito inteligente, mas encontra uma mulher (Marina Fons), descobre que outra vida é possível e volta para enculare Don Luigi. Moderadamente, gostei. E Scamarccio, que é um homem bonito, embrutece para servir ao papel. Bem interessante. Saí do cinema, corri para o hotel, onde já me esperava o táxi encomendado para me levar ao aeroporto. Olhando a paisagem, despedi-me mais uma vez de Paris. À bientôt, j’ espère. Mas não pude deixar de pensar na filosofia, segundo Woody Allen. A mãe, em Cacé Society, vive dizendo ao filho que aproveite cada dia como se fosse o último, porque um deia vai ser mesmo o último. Quem sabe? Aos 70 anos, idoso… Espero voltar. E já gostaria de voltar em setembro. Quem me acompanha sabe que Stendhal é uma de minhas paixões. Amo A Cartuxa de Parma e O Vermelho e o Negro. E não é que o segundo está virando ópera rock para estrear em três meses? Em setembro, o Grand Rex também faz uma festa de cinema para comemorar o aniversário de Indiana Jones. Vai exibir a tetralogia inteira, com direito a acompanhamento sinfônico da trilha de John Williams. Vai sonhando, Merten, mas se isso não é motivo para querer voltar a Paris o que mais poderia ser?