As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Uma felicidade guerreira

Luiz Carlos Merten

20 de novembro de 2012 | 11h11

Embarco daqui a pouco para o Rio, para o festival 4 + 1, que deve trazer ao Brasil Werner Herzog, a quem entrevisto amanhã, além de filmes radicalmente autorais, de acordo com o perfil do evento, já definido em outro festival em Buenos Aires, há dois anos, quasndo me encontrei – uma das tantas vezes em que isso ocorreu – com Apichatpong Weerasethakul. O rio também sedia a Semana Independente, e eu espero ver o novo Júlio Bressane, entre outros filmes. Estava agora escrevendo sobre ‘O Mandarim’, que passa amanhã no Canal Brasil, nos filmes na TV. Nem falei nada do impacto que me causou a ‘Lulu’ de Bob Wilson, com Angela Winkler. Confesso que não engolia o gênio do queridinho de Isabelle Huppert, mas desta vez ele me convenceu e me levou numa viagem embriagadora. Bob é um tremendo formalista, mas aqui há algo mais do que simplesmente sua fascinação pela forma. E a trilha, e o elenco (e Angela!), e a cor. Meu Deus” Pirei. Comemora-se hoje o Dia da Consciência Negra e eu confesso que fiquei perturbado, ontem, ao rever ‘O Contestado – Restos Mortais’, de Sylvio Back. Há uma cena em que a idosa, cavoucando na memória, conta histórias e canta canções que viajaram no tempo, através de narrativas orais. Uma dessas canções expõe um racismo brutal. Fala de negros como buchas de canhão do Exército, compara-os a cachorros nos c ombates do Contestado. Gente, é uma coisa chocante e a mulher sabe disso, ela canta para ressaltar o absurdo, mas ri. Me deu um constrangimento. A inconsciência. Não sei por quê, Freud deve explicar, mas me lembrei na hora de Tabajara Ruas e seu Capitão Netto. O negro que se integra à Revolução Farruopilha sonhando com um tempo e um espaço para sua raça, a bandeira esfarrapada e ele que avança com a perna amputada. O sonho destroçado. Acho aquilo de uma beleza, de uma dor, que me emociono só de lembrar. Não tenho muito tempo para ficar viajando aqui sobre filmes que evocam a consciência negra, mas certamente existem muitos, no cinema norteamericano e no brasileiro. Cacá Diegues fez muitos filmes para exaltar a negritude, e a sua Xica da Silva, com Zezé Motta, marcou época. Poderia citar ‘A Cor Púrpura’, um Spielberg do qual aprendi a gostar muito tempo depois. Outro Spielberg, ‘Amistad’, que cresce cada vez que o revejo. E ‘Faça a Coisa Certa’, o melhor Spike Lee, explosivo, sobre o qual também escrevi (antecipadamente) nos filmes na TV de quinta. O post talvez esteja desconjuntado, mas tenho de ir. Deixo vocês com a canção de Gilberto Gil para ‘Quilombo’ – ‘A felicidade do negro é uma felicidade guerreira’. Busco uma imagem, e não me veio a de Zumbi, mas a de Woody Strode, Draba, em ‘Spartacus’, de Stanley Kubrick. Grande Woody Strode.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.