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Uma certa solenidade de Kardec e o festival de porrada de John Wick

Luiz Carlos Merten

12 de maio de 2019 | 10h47

Nem me havia dado conta de que passei tantos dias sem postar. Foi uma consequência da semana agitada, com médico após médico dando segundas, terceiras e até quartas opiniões sobre a inevitabilidade de nova cirurgia de joelho. Lá vamos nós outra vez, talvez ainda nesta semana, ou na próxima. Espero que na próxima. Nos últimos anos tenho perdido a Virada Cultural, que bate com Cannes. Já que este ano perdi a Croisette, gostaria de ver um pouco da Virada, menos os shows, que atraem gente demais. Quem sabe o intensivão Quentin Tarantino, que vai exibir a íntegra da obra do autor, incluindo o director’s cut de Kill Bill? Tenho ido a cabines, ao teatro, feito entrevistas. Assisti a Kardec, muito bem produzido, distante anos luz da breguice de Nosso Lar, também de Wagner de Assis, mas ainda um tanto solene. Uma das médiuns, em choque com o professor, vaticina que ele vai entrar para a história. Entrou, e o filme sacraliza o movimento, com um personagem que não fala, mas emite pronunciamentos, consciente (demais) de sua importância histórica. Apesar disso, gostei – em termos -, achei digno, só estou curioso para saber se a onda espírita, nesse País agora evangélico, ou que assim parece, vai arrastar multidões aos cinemas. O filme começou a rodar em 16 de maio do ano passado, foi escrito um ano antes, talvez mais. Abre-se com uma defesa do ensino laico e um protesto do professor Rivail contra o catecismo na escola que, embora se passe na França de Napoleão III, tem tudo a ver com o momento atual da (des)educação no Brasil, em que o soi disant filósofo que comanda as cabeças do governo manda todo mundo tomar no cu e o ministro confunde Kafka com kafta. Quem me segue, apesar da dificuldade – parágrafos infindáveis, ausência de fotos, etc, o que me alija dos algoritmos de busca das redes -, deve ter-se dado conta de que nunca havia visto os filmes da série John Wick, com Keanu Reeves. Fui ver o terceiro, e tomei um choque. Acho que, há 50 anos, e como reação à tradição noir e aos policiais clássicos de Hollywood da época, teria gostado. Em 2019, esse fluxo de ação, substituindo o da consciência, em que o herói bate e arrebenta com a força dos punhos, das patas e mais todo o armamento de que dispõe – facas, machados, armas de fogo -, me pareceu um porre, bem cansativo, por mais coreografadas que sejam as lutas. Mas o filme tem aspectos interessantes. Todo mudo está mais velho – Anjelica Huston, Halle Berry, o próprio Keanu Reeves, bem mais pesado -, e embora nada daquilo faça muito sentido, exceto os cães, gostei de rever Mark Dacascos, como o extraordinário lutador que é. Vieram lembranças, fragmentos?, de Crying Freeman/Combate – As Lágrimas do Guerreiro e o Pacto dos Lobos, qualquer um deles bem melhor que essa nova série cultuada. Haverá 4? O desfecho indica que sim, e se ainda estiver por aí, até prometo ver, se me garantirem que Halle Berry, Anjelica Huston ou alguma nova personagem feminina vai aplicar um corretivo na tal juíza, a anti Mulher Maravilha.