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Um velho Cahiers, e com o gênio de Orson Welles

Luiz Carlos Merten

07 de janeiro de 2019 | 14h41

Quando fui almoçar com a Kika Freire no Oia, no Rio, saí cedo do hotel. Como estava próximo do metrô, fui no trem. Desci na Praça N.S. da Paz e, por puro acaso, saí em frente à banca de revistas de época na Visconde de Pirajá, que nem sabia que existia – a banca, não a rua. Chama-se A Cena Muda. Tem telefone, site -www.acenamuda.com.br. Tinha um Cahiers du Cinéma antigo, da fase de capa amarela, na vitrine. Entrei para dar uma olhada. Havia outros. Não são baratos, R$ 110 cada. Comprei o número 87, de setembro de 1958, com Orson Welles na capa. André Bazin, Jean Domarchi e Charles Bitsch fazem uma entrevista de carreira com o grande ator e diretor, que, na época, havia acabado de lançar A Sede do Mal. A entrevista é maravilhosa e, se há alguém com quem gostaria de discutí-la, seria com Gabriel Villela. Orson Welles e Shakespeare. Não é só porque ele já havia filmado Othello e Macbeth, e ainda faria Falstaff, o que sabemos hoje. Welles tinha essa visão muito interessante de Shakespearte. Todos os seus heróis são ‘salauds’ – bastardos, canalhas, fdp. O próprio Shakespeare, segundo ele, era um salaud. Welles criou, shakespearianamente, personagens trágicos dentro de esquemas de melodramas e chega a afirmar que heróis são insuportáveis, exceto nas tragédias gregas e no drama poético francês clássico. Posto que, como Shakespeare, seus heróis vivem no melodrama, só podem ser salauds. Não sei se consigo entender de verdade o que Welles diz. O único verdadeiro herói de Shakespeare, e é isso que gostaria de discutir com Gabriel, para entender melhor, é, segundo ele, Brutus, em Júlio César, mas é o que Welles chama de um papel ‘ruim’, Brutus tem tiradas imensas, mas não é simpático, talvez seja mais patético, e por isso os atores não simpatizam com ele. Welles acrescenta coisas intrigsntes. Propuseram-lhe, certa vez, fazer um Hamlet com Marlon Brando, e ele diz que Hamlet só faria no teatro, e montado de forma não romântica, porque o romantismo praticamente reduz a peça a um número de ator. Gabriel, que vai fazer seu Hamlet com Chico Carvalho, concordará com ele? Como brechtiano que Gabriel é, de carteirinha, creio que sim. Welles diz também que Macbeth é uma grande peça, mas não necessariamente um grande personagem. Adorei todas essas elocubrações que ficaram comigo e quando Welles peita seus entrevistadores, dizendo que é ótimo que Cahiers aprecie seus filmes, mas ele não aprecia o gosto de seus redatores e críticos. Diz que John Ford e Vittorio De Sica são seus diretores favoritos e o gosto por De Sica tem certeza de que o torna deplorável para a redação de Cahiers. Chega a afirmar que Sciuscià, Vítimas da Tormenta, é o melhor filme que viu. Há 60 anos, os críticos da revista eram loucos por Vincente Minnelli. Perguntam-=lhe o que acha do pai de Liza e ele responde – “Vamos continuar na nossa conversa séria, sobre cineastas”, coisa que, obviamente, Minnelli não era para ele. Seria um ‘decorador’? Valeu o investimento. Da próxima vez que for ao Rio, vou passar pela Cena Muda, de novo. E ah, sim, vou aproveitar para contar uma história narrada por Toquinho em seu show, no Rival. Toquinho estava morando, e tocando, em Roma. Marcello Mastroianni foi ver um show dele. Saíram para jantar. Marcello, impressionado com a habilidade de Toquinho no violão, quis saber se ele ensaiava muito, se era muito puxado, se exigia muita disciplina, etc. Aí, reclamou da vida de ator – ler roteiros, decorar diálogos, criar um personagem e, principalmente, o trabalho com diretores, que, às vezes podia ser bem complicado. Tudo isso, mas aí Marcello saiu-se com essa – “Pode ser duro, mas é melhor que trabalhar.” Existe na afirmação o reconhecimento do que há de lúdico na interpretação. Eu, muitas vezes, me sinto assim. Sei que trabalho um monte, e muita gente me critica por isso, mas estou é me divertindo.

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