As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Um sábado 10, com humor inglês e reencontros afetuosos (de volta ao Estado de Sítio de Gabriel Villela)

Luiz Carlos Merten

16 Dezembro 2018 | 11h02

Deixei a luz da manhã entrar e o sol me iluminou. Fui rever ontem à noite Estado de Sítio, que termina hoje temporada no Sesc Vila Mariana (com promessa de voltar em janeiro, em outra unidade). Reencontrei Gabriel Villela, com quem não falava há tempos. Foi um reencontro fraterno e amoroso. Saímos para jantar, bebemos, rimos. A felicidade do riso. Cheguei em casa quase 3 da manhã, leve, livre e solto. Ontem à tarde fui ver O Chá das Damas, de Roger Michell, que pretendia emendar com Colette. Havia tentado ver o longa de Wash Westmoreland com Keira Knightley como a escritora no Mix Brasil, mas foi aquela sessão com audiodescrição, o que é bom, mas na qual o som vazou para a sala toda, o que foi mau. Vou tentar ver Colette hoje. As damas são Judi Dench, Maggie Smith, Joan Plowright, que não sabia que estava cega, e Eileen Atkins. As quatro foram nomeadas – é assim que se diz? – damas do império britânico, por sua contribuição ao ‘dramma’. Roger Michell dirigiu Um Lugar Chamado Nothing Hill, o filme de cabeceira de Dib Carneiro, Uma Manhã Gloriosa, Um Fim de Semana em Paris, etc. Reúne essas quatro senhoras que tomam chá, e eventualmente champanhe, jogam conversa fora sobre carreiras, maridos, etc. Queixam-se da falta de emprego – Maggie diz que só sobra para elas o que Judi rejeita e ‘Larry’, Laurence Olivier, o ex-marido de Joan, é o alvo preferido. Todas têm histórias para contar sobre o narcisismo, para dizer-se o mínimo, do personagem, e a própria Joan admite que foi um privilégio e um tormento viver com ele. Adorei o humor inglês, a maldade travestida de civilidade. Todo mundo sai chamuscado, mas ninguém gravemente ferido. Quanto a Estado de Sítio, o espetáculo de ontem foi perfeito e a ‘trilha’ – de Goran Bregovic, basicamente de Rainha Margot, mais os cantos revolucionários espanhóis – cantada divinamente. Com a fluição, e fruição – perdi o medo de que fossem cair do banco -, percebi muito melhor como o barroco mineiro de Gabriel vira gótico para dar contas do texto sombrio de Albert Camus. Andréa Beltrão e o marido, Maurício Faria, estavam lá. Ela ainda está platinada, por conta da minissérie sobre Hebe, que ainda gravam – Maurício dirige – durante o mês de janeiro. (O filme é outra história, já está todo captado, digo, a imagem.) Ouvi Gabriel dizer a Andréa como foi doloroso, para ele, trabalhar com aquele figurino basicamente preto. Engraçado, o preto está ali, o tempo todo, mas no limite, se lembro agora do espetáculo, me vem uma explosão de cor (e a ‘noiva’ que atravessa o palco com sua sombrinha que creia uma ‘aura’). A transformação da Morte, secretária da Peste, em cão agora foi 10, com o toque brechtiano de revelar o mecanismo, estimulando o distanciamento, mas não da forma que senti um tanto atabalhoada dos primeiros dias. Gostei muito de rever Estado de Sítio, e de reencontrar os amigos Cláudio e Gabriel. A piada quando o casal se ofende continua genial – ‘Cadela!’ ‘Juiz!’ E a benzedura (nordestina, que Gabriel encontrou na internet) é um ponto alto no ‘abrasileiramento’ do espetáculo. Adorei reencontrar todo aquele pessoal – Cláudio Fontana, Elias Andreato, Ivan Andrade, Cacá Toledo (com a namorada baiano/gaúcha), etc. Só não consegui falar com Chico Carvalho, que escafedeu-se. Sou seu fã, viu? O Nada é outra criação genial do Chico.