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Um Panorama e a questão seminal da delação

Luiz Carlos Merten

11 Agosto 2018 | 10h28

Havia visto Urinal – num teatro da Rua do Bosque. É curioso como, no meu imaginário, certos eventos são sempre associados aos lugares. Lembro-me perfeitamente dos cinemas em que assisti a certos filmes seminais da minha vida. Não sei, isso deve ou pode ocorrer com todo mundo, mas é muito forte em mim. A questão é que me lembrava da montagem, do espaço, mas não do nome do diretor. E, agora, tenho de acrescentar que, às sextas, tenho comprado a Folha por causa do Guia, e o motivo é simples – sempre me esqueço de pegar o Divirta-se, que é o Guia do Estado. Esqueci ontem de novo. Enfim, com o jornal da concorrência na mão, dei uma olhada na coluna do Ruy Castro – foi assim que descobri, em outro número, uma figura maravilhosa, Alexandre Gontijo, que, ontem me mostrou minha colega Regina Cavalcanti, também mereceu um texto belíssimo de João Moreira Salles. Enfim, desvio-me do assunto. Passando os olhos pela Ilustrada, vi que havia crítica elogiosa sobre Um Panorama Visto da Ponte. Li, não me acrescentou muito, exceto que o diretor Zé Henrique de Paula é o mesmo de Urinal e de outra peça (musical) em cartaz, O Pacto – que agora vou ver, absolutamente. Li a crítica, não com muita atenção – porque não precisava -, li todo o programa (de Um Panorama) e tenho de admitir que me senti meio ludibriado (em termos de informação). Do ator ao tradutor e aos produtores, todos falam em incapacidade de compreender os sentimentos, crítica ao american way of life, etc, e só o diretor, en passant, refere-se ao tema atualíssimo da delação. Acho o texto maravilhoso, mas para falar de sentimentos, de paixões incestuosas e dessa capacidade que tem o homem de querer destruir no outro o que não consegue entender em si mesmo – a atração/repulsa de Eddie pelo ‘dinamarquês’-, haveria, quem sabe, outros textos, e o que faz a diferença no Panorama é justamente a delação. O texto de Arthur Miller surgiu como reação ao gesto polêmico de Elia Kazan, quando aceitou colaborar com a Comissão de Atividades Antiamericanas do Senado. Kazan confirmou nomes que já haviam sido delatados durante a caça às bruxas do macarthismo e o fez, segundo ele, numa atitude mais simbólica do que efetiva – os nomes já estavam na roda -, para manifestar seu descontentamento com o Partido Comunista dos EUA, que não era revolucionário, mas stalinista. Não foi só Arthur Miller que não aceitou o gesto nem a desculpa de Kazan. Décadas depois, quando a Academia homenageou o grande cineasta com um Oscar especial, parte da plateia permaneceu sentada, recusando-se a aplaudir, em protesto. O texto não é sobre Kazan, porque haveria muito a dizer sobre ele, sobre Edward Dmytryk, os ‘delatores’ que não se renderam e continuaram fazendo filmes críticos que pertencem à história. Um Panorama surgiu como reação às delações – e à de Kazan, em especial, que dirigira A Morte do Caixeiro Viajante, a peça maior de Miller, no teatro – e isso tem tudo a ver com o Brasil atual. Se não é o único motivo, talvez seja o maior para exumar a peça, que é maravilhosa, mas em certos aspectos ficou datada (coisas de números, cifras) e poderia ter sido atualizada. Estou lendo o livro com a entrevista de Lula – A Verdade Vencerá – e durante todo o tempo as delações premiadas estão vindo à tona. O ex-presidente tem um mantra – ‘Eu sei porque me condenam, eu sei porque serei preso’ (ainda não havia sido) e o sentido do livro (a condenação sem provas conclusivas) fecha perfeitamente com outro volume, A Outra História da Lava-Jata ou Como Uma Investigação Necessária sobre a Corrupção se Tornou Uma Ameaça à Democracia, de Paulo Moreira Leite. É isso que está acontecendo, e no fundo a grande atualidade/utilidade de uma encenação (boa, não genial) como a de José Henrique de Paula é dar subsídios a essa discussão. Poderia citar também a recente 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, cujos filmes, quase todos, refletem a aridez da paisagem humana e social da Itália pós-Operação Mãos Limpas. Gostei de ter visto Panorama, aliás, é curioso. O filme de Sidney Lumet adaptado da peça foi traduzido no Brasil só como ‘Panorama’ e eu estranho quando vejo Um Panorama, como está agora e é o correto (A View from the Bridge). Tenho um reparo, que talvez seja coisa minha, que venho do cinema. Aquele palco do Teatro Raul Cortez é descomunal, um pé direito do cão, uma embocadura para abrigar bateria de escola de samba. A cenografia até tenta ocupar o espaço, mas os conflitos, muito íntimos, tendem a se dispersar naquela amplidão, embora tenha me parecido interessante a ideia do narrador (Sérgio Mamberti) que segue de cima o trágico desenrolar dos fatos. Em mais de um momento senti falta do cinema – aproxima a câmera, por favor! Mas, repito, gostei de ver Um Panorama. Que sonho americano, que nada. Isso está lá, mas, para nós, nesse momento, o que interessa é a delação. Veja(m)! Jesus, não! Com 500 demissões esta semana (no Grupo Abril)… Assistam!