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Um olhar sobre as estreias

Luiz Carlos Merten

26 de julho de 2018 | 13h17

Estreiam nesta quinta, 26, dois filmes brasileiros dos quais gosto muito – Alguma Coisa Assim, de Esmir Filho e Mariana Bastos, e Vinte Anos, de Alice de Andrade. Há dois anos fui jurado em Brasília, quando o filme de Alice concorria com Martírio e O Rifle. Meu favorito para o Candango era Vinte Anos, com um eventual prêmio de direção para o gaúcho Davi Pretto. Respeito Vincent Carelli, mas Martírio, apesar da contundência de suas críticas, não tem a excelência cinematográfica de Corumbiara, quando ele venceu Gramado. Nosso júri era formado predominantemente por mulheres, que cerravam fileira nas questões essenciais. Os homens dispersaram-se. Vinte Anos ganhou o Candango para melhor trilha musical, e O Rifle o prêmio de som. Caraca! Face à experiência, para mim traumática – o que tive de ouvir depois não está no gibi -, declinei quando me convidaram para ser júri em Gramado, no ano passado. É muito melhor ficar de fora para, como jornalista, criticar as premiações, o excesso de Kikitos para Como Nossos Pais – eu tirava dois ou três – e a absurda não premiação de Magali Biff como melhor atriz, por Pela Janela. (Me desculpe, Maria Ribeiro.) Vinte Anos é documentário, no qual Alice reencontra três dos casais de seu curta Luna de Miel, nos anos 1990. Por meio deles, ela documenta as mudanças na ilha de Fidel e, sem fazer apologia do regime – e sim, ficando do lado dos personagens -, celebra Cuba como deve ser, um estado de espírito. O curioso é que, com ambas as diferenças que os filmes possam ter, a ficção Alguma Coisa Assim também nasceu de um curta que Esmir e Mariana fizeram em 2006, espero estar acertando o ano, e que os levou a Cannes. Os mesmos personagens, 12 anos depois. O garoto gay, André Antunes, e a amiga, Carol Abras, com quem ele termina tendo uma ligação mais íntima. Alice trabalha atualmente numa série de TV, com o que será um desdobramento de Vinte Anos. Ela vai em busca de mais casais do casting original de seu curta. Foram 40, ela já encontrou 30. Na série ficarão 13, no filme são 3. Mal posso esperar pelo momento em que Esmir e Mariana vão retomar os personagens de André e Carol, porque tenho certeza de que eles farão isso um dia (terão de fazer). O método de Esmir e Mariana, e o de Alice podem lembrar Richard Linklater, mas se apressa quem define Alguma Coisa Assim como o Boyhood brasileiro. Da Infância à Juventude trabalha a evolução espacial e temporal no mesmo longa, mas embora tenha diferentes datas, Alguma Coisa faz parte de um projeto maior, em três tempos (como a série Antes, com Ethan Hawke e Julie Delpy). Alguma Coisa Assim e Vinte Anos falam de afetos, na juventude e numa idade mais madura, com ecos do passado, e isso também ocorre em Uma Casa ã Beira-Mar, de Robert Guédiguian, com um lapso muito maior de tempo. Alguma Coisa assim tem um significado especial para mim. No meu imaginário, é o anti-Me Chame Pelo Seu Nome. Um filme sobre o ficar juntos, apesar de tudo. Doloroso, pungente, lindo. Uma Casa à Beira-Mar – no princípio, pensei que seria Três Irmãos, o meu Francesco Rosi, que prefiro a qualquer outro, incluindo o Bandido Giuliano e Le Mani Sulla Città, cuja importância (revolucionária?) talvez seja maior. Uma irmã e dois irmãos reúnem-se porque o pai está morrendo. Velhas feridas. Ela é atriz, a filha pequena morreu afogada na casa à beira-mar e ela responsabiliza o pai. Por que veio, pergunta um irmão? É um pouco a mesma pergunta feita a Rachel Weisz quando chega para o enterro do pai em Desobediência, de Sebastián Lelio. Porque sem retorno, físico ou imaginário, ao que nos faz sofrer, não há superação. Tentando ignorar, a ferida permanece. Uma Casa à Beira-Mar também é sobre afetos, na idade madura. Belíssimo filme. E chegamos a Missão Impossível – Efeito Fallout, que estreia hoje e, do ponto de vista do mercado, é a estréia. Gosto muito da série toda, mas tenho os meus preferidos, claro. O 2, o 3, Protocolo Fantasma… Mas gostei muito de Efeito Fallout, com todas aquelas perseguições em Paris e o reencontro de Ethan Hunt com a ex, Júlia. Tom Cruise e Michelle Monagham. O diálogo poderia ter sido escrito por Ingmar Bergman, que entendia de casamentos, mas é cortesia do diretor e roteirista Christopher McQuarrie, homem de confiança do astro (e começo a crer, um grande cineasta). Gosto desses filmes pirotécnicos nos quais, de repente, tudo para e diretores que são artistas, sensíveis, nos ajudam a compreender o humano. Esmir Filho (e Mariana Bastos), Alice de Andrade, Robert Guédiguian, Cristopher McQuarrie. Filmes para todos os públicos, gêneros, idades – filmes. Bons. Escolha o/s seu/s.