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Um gost(inh)o de mel

Luiz Carlos Merten

20 de janeiro de 2019 | 10h29

Em Santiago, procurando uma loja de revistas raras no Paseo Ahumada, confundi os números e terminei entrando numa galeria que me levou diretamente à Livraria Francesa. Havia uns exemplares antigos de Cahiers du Cinéma. Não tão antigos – novembro de 2016, com La Création Vidéo sur l’Internet; setembro e outubro de 2017, números dedicados à reentrée (o primeiro, e a revista enlouquece com a Jeanette de Bruno Dumont; e Twin Peaks, o retorno da série cult de David Lynch, o segundo). O curioso é que voltei a São Paulo e, na banca do Conjunto Nacional de São Paulo, pude comprar a Cahiers de outubro de 2018, com A Casa Que Jack Construiu, e a revista trata o Lars Von Trier como événement, o que é, bem entendido. O caso é que há anos as revistas francesas de cinema desapareceram das bancas no Brasil, ou pelo menos em São Paulo. Estarão voltando, ó contradição, nesse Brasil que, sob Bolsonaro, coloca-se de quatro, para o prazer da ‘América’? Ouço dizer que a novela das 9, O Sétimo Guardião, vai mal de audiência. Mas quem precisa de novela quando temos o filhos – os guris – do presidente? O esforço de um para barrar investigações no Supremo estava na capa dos jornais, o pirulito do outro é tema das redes sociais (me contaram, porque não frequento esse meio). Que dia é hoje, 20? Bastaram menos de três semanas para que as máscaras caíssem, e agora seja o que Deus e o Diabo quiserem. De volta a Cahiers, sempre me surpreende, nesses números antigos, o revisionismo crítico. Nunca me esqueci, na fase da capa amarela, num número que comprei muitos anos depois, na rubrica lançamentos, havia uma crítica sucinta. ‘Apenas um filmes inglês este mês, e já é demais.’ O filme em questão era algum de Tony Richardson, e Cahiers aproveitava para ‘despachar’ o free cinema. Agora, aproveitando a ‘sortie’ de Um Gosto de Mel, em cópia nova, nas salas, o free cinema é reabilitado e Richardson vai para o pódio. Richardson ficou ‘audacioso’ e a revista lembra que a adaptação da peça de Shelagh Delaney deixou grandes traços na cultura inglesa – é o filme preferido do ex-vocalista e letrista do The Smiths, Steven Patrick Morrissey. Em Manchester, Rita Tushingham, grávida de um marinheiro que partiu para o mar, ganha apoio de dois outsiders, um negro e um gay – numa época em que a homossexualidade ainda era banida por lei na Inglaterra. Cahiers lembra que Richardson, ex-marido de Vanessa Redgrave, levava uma vida dupla, escondendo sua homos(bi?)sexualidade, até morrer de complicações provocadas pela aids, em 1991. Nunca me esqueci da cena em que Murray Melvin, o gay, vai pedir informações na clínica de obstetrícia e sua simples presença provoca o tititi entre as grávidas, na sala de espera. Cochichos, risinhos, um preconceito que, nas circunstâncias, hoje dificilmente estaria superado, Nesse mundo ambivalente em que vivemos, nada como o tempo para recolocar as coisas em perspectiva.

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