Um estranho no canavial
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Um estranho no canavial

Luiz Carlos Merten

31 Janeiro 2014 | 10h15

TIRADENTES – Confesso que ontem corri tanto que nem tive tempo de postar. Além das várias matérias que estão hoje no Caderno 2, participei, como crítico convidado, do debate sobre o filme de Ana Moravi, A Mulher Que Amou o Vento, dei entrevistas. E o tempo todo tentava acertar a entrevista, por telefone, com o diretor de Fruitvale Station, que ocorreu às 10 da noite, mas em condições precárias. Falamos um pouquinho e caiu. Talvez tenha sido precipitado, mas em função do começo da Aurora cravei que a seleção corria o risco de cair na mesmice, com filmes de um certo perfil social/processual. Bem, enganei-me. A seleção agora muda num ritmo que não está dando para acompanhar. Tive lá minhas restrições ao experimentalismo do filme da Ana, mas não me incomoda que, para algumas pessoas, minha participação no debate tenha passado um entusiasmo excessivo. Ana conta uma história do vento, não se intimidando com o que Jorins Ivens e Marceline Loredan fizeram há 20 e tantos anos. No silencioso, e clássico, O Vento, Victor Sjostrom (Seastrom) se apoiava numa história rude, permeada de elementos concretos, para tratar do invisível (o vento) e do indizível (os sentimentos). Ana investiga o território do mito e dá uma forma humana ao vento, interpretado por seu marido, Dellani Lima. Como sou um velho tolo e romântico, achei lindo o carinho dela, beijando o maridão no palco do Cine-Tenda. Como sou inxerido, no fim do debate puxei o Dellani de lado e lhe disse que, por favor, tomasse conta daquela guiria, tão inteligente, talentosa, e jeitosa. À noite, os filmes da Aurora, respectivamente de números 4 e 5 – hoje, serão o 6 e o 7, fechando a competição pelo troféu Barroco -, de certa forma me proporcionaram um choque, e por diferentes motivos. Achei bem intrigante o método do paraenaense Arthur Tuoto, cujo ‘processo’ consiste na apropriação. Ouvi alguém falar em Dziga-Vertov? No Mazagão, que, por sinal, onde anda? Arthur Tuoto é um autor solitário, que trabalha sobre imagens e sons captados por outros. No caso, um áudio de Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville e imagens que incluem cenas de manifestações no Rio (acho) e em São Paulo (com certeza). No final, conversei com Ismail Xavier e ele me levantou a questão dos direitos autorais. Godard pode ser virulento contra o sistema, mas é duro na queda na questão de seus direitos de autor, o que pode condenar Aquilo Que Fazemos com as Nossas Desgraças ao circuioto de festivais, mas a verdade é que aqui em Tiradentes ninguém está interessado no mercado. A pesquisa, a experimentação, o processo é que valem. Mercado é sinônimo de ‘concessão’, o que sempre tenho minhas dúvidas de que seja assim. Ainda estava assimilando Aquilo Que Fazemos com Nossas Desgraças – e a desgraça maior, pelo que deduzi, é fazer cinema, mas isso preciso ir ao debate para ver se é a opinião do autor -, e caí na folia de Bat-guano, do paraibano Tavinho Teixeira. Esse povo da Paraíba anda muito arretado. O filme abre-se com um boquete, pelo que entendi feito pelo diretor, e prossegue caótico, mas sempre original e criativo, misturando gêneros e fazendo a releitura de personagens cults em, blockbusters, Batman e Robin. Na ‘trama’, se é que se pode dizer assim, Batman perdeu um braço e passa a vida esperando um chamado de Hollywood. Na apresentação, Tavinho já ganhou a plateia porque é performático. Deu a palavra ao produtor, ele. Ao ator, ele. E finalmente ao diretor, ele. Cada vez, rodopiava sobre si mesmo e assumia essa persona. Muito simpático, divertido e falando como falariam três pessoas diferentes. A gente ainda se recuperava do boquete e a cena seguinte se passa num canavial, à noite, como ponto de pegação. Um Estranho no Lago virou Um Estranho no Canavial. Esse Tavinho não é mole. Gostei demais das cenas da dupla no carro, com a estrada e a geografia da cidade como projeções de fundo (ou de lago). Bem melhor que as imagens em negativo que acompanham o som do vento no filme da Ana, e que é a parte que não gosto (embora o som seja fundamental). Fiquei pensando, até conversei sobre isso com Cléber Eduardo, curador da Aurora, que o cinema paraibano é a novidade da vez no cinema brasileiro. Havia adorado no ano passado o Ferrolho, que integra a trilogia do barro de Taciano Valério. Esses caras têm humor, praticam uma estética do escracho. Não é para todos os gostos, mas gostei.

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