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Um Estado de Liberdade expõe o estado do mundo

Luiz Carlos Merten

20 Novembro 2016 | 09h54

Fui ver ontem Um Estado de Liberdade, Free State of Jones. Não ouso dizer que tenha gostado muito do filme de Gary Ross, mas gostei muito de vê-lo. E até esse gostar muito é relativo. Impressionei-me muito, isso sim. O gostar dependeria de outro tipo de sensações, emoções e o que o filme mostra é muito duro. Mas é bom. Quão bom ainda depende de eu rever, o que vou fazer. Só mais uma coisa, Gugu Mbhata Raw. A atriz de Belle e Nos Bastidores da Fama é ótima, e bela. Algumas reuniões de pauta (do Caderno 2) atrás decidimos que O Nascimento de Uma Nação, de Nate Parker, iria para a capa, mas teríamos um gostei e não gostei. Luiz Zanin invocou a tragédia grega, catarse, para justificar seu não gostei e eu confesso que não li o texto dele. De minha parte, não há nada de catártico nem jubilatório nos massacres que Nat promove e só o fato de ele terminar vomitando após passar master Samuel pelo facão já me revelou o mal-estar profundo que é o foco crítico do ator, diretor e roteirista Nate Parker. Mas, enfim, achei que Free State of Jones teria tudo a ver com The Birth of a Nation, a versão de 2016, e não me enganei. Uma rebelião de pequenos proprietários e escravos na América, durante a Guerra Civil. A de Nat Turner foi bem anterior, e ele morreu enforcado em 1831. É curioso que a ‘América’ desencave seus segredos justamente nesse ano de afirmação do conservadorismo, com a vitória de Donald Trump para presidente. Mas antes de seguir falando sobre Estado de Liberdade quero falar do ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero. Nos festivais de Gramado e Brasília, esse pobre homem resistiu bravamente ao mantra de ‘Fora, Temer’. E eu achando que ele merecia. Caiu fora tiroteando no próprio governo, acusando colega ministro de corrupção, ao pressioná-lo para obter aprovação de projeto embargado pelo Patrimônio Histórico. Li isso quando estava entrando no cinema para ver o filme de Gary Ross. Seria cômico, se não fosse trágico. Todo dia temos esse espetáculo dos juízes de Curitiba na mídia, e só de vez em quando sai uma noticiazinha, bem pequeninha, de que a única coisa que o presidente Michel teme é o STE, o julgamento da chapa Dilma/Temer. E por que isso não vira ‘a’ notícia? Não entendo nada dos meandros da Justiça – exceto quando leio os livros de Paulo Moreira Leite sobre o outro lado do Mensalão e da Lava-Jato -, mas acho muito interessantes essas tentativas de poupar o PMDB, e Temer, enquanto os caciques vão caindo. Outra eleição não seria oportuna, não enquanto Lula ainda puder ser candidato, e eleito. Fizeram-se todos os tipos de aliança para garantir Temer e seu presumível mandato tampão, mas volta e meia a podridão vem à tona (e Eduardo Cunha continua calado, a Esfinge). Enfim, o filme de Gary Ross é sobre esse branco – Matthew McConaughey – que lidera a rebelião, em pleno enclave dos confederados. Mais de 80 anos depois, seu descendente está sendo julgado por haver infringido a lei do Sul, casando-se com uma negra. O filme mostra, no pós Guerra Civil, o Congresso dos EUA ratificando o direito de voto dos negros. A teoria, na prática, é outra. A corrupção eleitoral é imediata e os resultados manipulados para garantir os direitos dos ‘senhores’. Nunca tinha ouvido falar de uma tal de lei dos aprendizes, que permitiu aos antigos senhores contratar filhos de escravos, sem salário, como aprendizes, na verdade uma nova forma de escravidão. Se o aprendiz fugia, o capitão do mato ia atrás e tudo, porque o aprendiz era propriedade, perdão, responsabilidade do master. Muito oportuno desencavar essas histórias. Não são nenhuma exclusividade da ‘América’. Gary Ross teve assessoria de importantes historiadores. Tem uns dez, citados como consultores, no fim, e dois ou três eu reconheci de nome. Lá vou eu enfiar os pés pelas mãos. Filmes como Nascimento de Uma Nação e Estado de Liberdade são importantes porque avalizam o debate que interessa hoje, e que a Mostra iniciou, sobre a voz do negro no cinema. Por mais que goste de Paul Verhoeven, e das ambiguidades de Elle, a questão urgente agora é outra, e é essa. Gary Ross é branco. Fez filmes como Seabiscuit, Alma de Herói, que amo, e o primeiro Jogos Vorazes. Escolheu Jennifer Lawrence para o papel de Katniss Everdeen e, com a aprovação da autora, Suzanne Collins, adotou certos procedimentos que formataram a série toda (como a transformação do personagem Seneca em guindaste para incorporar tramas secundárias). Quando o primeiro estourou, pediu tempo aos produtores para preparar o 2, mas os caras queriam o filme a toque de caixa para seguir faturando no ano seguinte. Gary Ross tornou-se supérfluo, foi chutado. Conteúdo crítico não lhe falta. Sugiro que vejam Um Estado de Liberdade.