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Um dia especial

Luiz Carlos Merten

05 de novembro de 2014 | 09h38

Vi somente agora que, naquele lançamento em DVD da Versátil, o disco duplo não contém apenas o Harakiri de Masaki Kobayashi, mas também o remake de Takashi Miike. Muito interessante. Preciso fazer matéria para o impresso, ou pelo menos para o portal do Estado. Quem me acompanha sabe que Kobayashi está no meu panteão e que Rebelião, com o antológico embate final entre dois atores míticos – Tatsuya Nakadai e Toshiro Mifune -, é, para mim, o maior filme japonês de todos os tempos. Mas tenho de contar uma coisa. Quando conto que minha casa virou um buraco negro e que as coisas somem aqui dentro, entre pilhas de livros e DVDs, alguns amigos acham que faço gênero. Encontrei outro dia um álbum sobre Kurosawa que acho que comprei na Barnes & Noble.  Akira Kurosawa – Master of Cinema, by Peter Cowie, edição da Rizzoli, com apresentação de Donald Ritchie e comentário de Martin Scorsese. O livro divide-se em capítulos – O Homem e Seus Anos de Formação, Imagens do Mundo Moderno, O Imperativo Histórico, A Conexão Literária, Formalismo e os Elementos, Entrando na História. Como um analfabeto, não li os textos, mas desfrutei uma observação de Ritchie, que me parece das mais pertinentes. Quando morreu, em 1998, aos 88 anos, Kurosawa deixou o legado de uma família, uma companhia de filmes e uma obra internacionalmente reconhecida, mas se lhe fosse dado escolher qual o legado que gostaria de deixar seria talvez o de exercer uma influências moral entre os jovens realizadores. Achei comovente. E o que quero dizer é que o livro sobre Kurosawa – esse, porque tenho outro – me deslumbrou. Não me canso de olhar ‘as figuras’. Estou sendo contraditório, sei. Não ligo para fotos no blog, esqueço-me com frequência de pautar fotógrafo quando vou fazer entrevistas (e depois tenho de correr atrás), mas estou adorando viajar nas lembranças que as fotos me trazem dos filmes. Não só dos filmes. Há uma foto de 1914, Kurosawa aos 5 anos, num viagem a Gotemba, com o clã familiar. Atrás dele está o pai e, ao lado, um sujeito jovem (algum tio) que se destaca do grupo porque todos parecem gente ‘de bem’, vestidos à moda ocidental (menos as mulheres) e ele tem cara e jeito de aventureiro, com quimono e chapéu de palha. Não parece pertencer àquele universo. Há uma sucessão de fotos sobre a filmagem da batalha na chuva em Os Sete Samurais. Já conhecia algumas – me deixam louco, como se estivesse entrando de penetra num momento sagrado. Já delirei bastante. O que quero dizer, e esse post era para isso, é que vi ontem o Interestelar de Christopher Nolan. Tinha uma expectativa muito elevada, e não só por Interestelar. Nolan e David Fincher talvez sejam os ‘autores’ de Hollywood, na atualidade, que mais me interessam. Não me decepcionaram, mas Interestelar, com as imperfeições que possa ter, me levou a um lugar que não cheguei com Garota Exemplar, que talvez seja mais ‘perfeito’. Esse lugar não é o imaginário que o filme alimenta, com sua odisseia no espaço. É algo muito íntimo, que se desenha na relação de Matthew McConaughey com a filha e que ele coloca numa frase, citando a mulher que morreu. Os pais vivem para deixar boas lembranças aos filhos. Para alguém – muitos? -, isso poderá ser banal, piegas, mas para mim, que sou pai e tento ser ético, como Kurosawa – as coisas, afinal, se misturam e completam -, foi um assombro. Chorei, até quase desidratar e depois ouvi de Orlando Margarido, que estava na sessão, ‘Xi, o Merten deve estar chorando com essa história de pai-filha.’ Fiquei tão chapado que perdi o foco e, na sequência, ao entrevistar (de novo) Bertrand Bonello, tive de dizer ao diretor de Saint-Laurent que sentia muito, mas ainda estava sob o impacto do Nolan. Ele foi compreensivo, mas sinto que uma entrevista mais objetiva, como a que fiz com o ator Gaspard Ulliel, teria sido mais frutífera. Comecei a viajar, tentando iluminar aspectos mais sombrios e obscuros, que Bonello me confessou que devem permanecer assim, porque não convém muito, para um criador, tentar entender os meandros de sua criação. Foi um dia intenso, de muita correria – e paradas no trânsito. Encontrei Debora Secco e falamos muito de seus olhos, de seu olhar. Como ela, contra os conselhos de todos os amigos que lhe diziam para não fazer Bruna Surfistinha, foi em frente e ficou 12 dias num puteiro da Augusta tentando decifrar o olhar das garotas, antes e depois de cada um dos numerosos clientes que atendiam. O olhar de quem perde a alma. O olhar de quem já perdeu a batalha (da aids) e pacifica seus demônios, a Judite de Boa Sorte. Entrevistei a Debora entre Interestelar e o Bonello. Com ela, a entrevista foi mais centrada, porque tocamos em temas que o Nolan deixara expostos em mim, como feridas. Que viagem, o cinema.

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