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Um choque!

Luiz Carlos Merten

04 de março de 2014 | 23h49

Acabo de rever 12 Anos de Escravidão. Fui com meu amigo Dib Carneiro, que não tinha visto o filme de Steve McQueen, e depois jantamos com Orlando Margarido num grego, que é contemporâneo, na Peixoto Gomide. Confesso que vi outro filme. Havia visto 12 Years a Slave em Los Angeles. Sustentei sua candidatura para o Oscar sem revê-lo. É melhor do que pensava e bastou uma cena para saber disso. Salomon Northup é pendurado por uma corda atada em seu pescoço. Para não morrer, ele se mantém na ponta dos pés, num terreno embarrado. Aos poucos, a vida na fazenda volta ao normal. Ao redor, vemos as pessoas retomando suas atividades, e o cara ali, lutando para não morrer. É um plano, uma sequência, extraordinário (s). Acadêmico, o caralho! O filme versa sobre o quê, mesmo? Salomon faz de tudo para sobreviver. Isso não significa apenas fechar os olhos para as desgraças dos outros, mas também abrir mão da própria identidade. Ele deixa de ser Salomon e vira um negro iletrado, Platt. Sabemos que o filme baseia-se num relato autobiográfico, mas na ficção de Steve McQueen Salomon, ou Platt, começa não conseguindo escrever e depois chega a desistir de fazê-lo. São os temas de McQueen – o verbo e a propriedade. Os negros são coisas, pertencem a seus senhores, que podem dispor de suas propriedades, diz a Bíblia. O verbo, a palavra, reifica a consciência. De volta a casa, Salomon começa desculpando-se com a mulher e os filhos, mas ele não tem do que se desculpar, diz a mulher. McQueen cria aquele momento que precede, digamos, a esperada solução do drama. Filma só rosto de Chiwetel Ejiofor. Ele passeia seus olhos, encara a câmera (o espectador) e segue errático. São momentos preciosos de cinema. Em geral, falo da concorrências, não dou nome à Folha, um jornal que apoiava a ditadura – veja Cidadão Boilesen – e virou ‘democrático’ quando lhe foi conveniente. Até onde sei, Inácio Araújo não gostou do filme de McQueen, como não gosta de Shame, mas ele não escreveu – não escreveria – as canalhices que ‘críticos’ de segunda ou terceira têm escrito, para criar caso, como o jornal gosta, para bancar o fashion. Continuo amando Gravidade, mas agora entendi melhor o 12 Anos. Spike Lee já me havia dito que era o maior filme sobre o que é ser negro na América. Agora, finalmente, percebo por quê.

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