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Últimas conversas

Luiz Carlos Merten

30 de junho de 2016 | 16h31

Amilton Pereira me disse ontem no almoço, no Estado, que a Abracine lança livro com os melhores filmes do cinema brasileiro, escolhidos por seus associados. Como não pertenço ao colegiado, não participei da pesquisa. Sem picuinha, ainda bem (que não fui chamado a opinar). Limite, de Mário Peixoto, chegou em primeiro, e Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, em segundo ou terceiro. Vamos logo para os últimos, para ver se tem alguma coisa que me atrai. Limite, já desisti. É o grande mito ‘burguês’ do cinema brasileiro. Ainda bem que fiquei fora dessa. Fiz, para minha colega Eliana Souza, pauteira do Caderno 2, uma lista dos 25 melhores filmes de todos os tempos. Por precaução, fiz duas listas – os 25 mais importantes, quase sempre apontados como ‘melhores de todos os tempos’, e os 25 que amo, e que não são, necessariamente, os mesmos. Por exemplo, Rocco e Seus Irmãos, o filme da minha vida, entra na segunda. Tem havido uma mitificação de Eduardo Coutinho que confesso que me exaspera. É curioso que um irmão Salles, Walter, seja oficiante do culto a Limite e outro, João, do culto a Coutinho. Limite não entra em nenhuma das minhas listas de 25 + e tenho a impressão de que nem Cabra Marcado. Reconheço a importância do filme, claro, é o mínimo (máximo?) que posso fazer e até, no limite entre Mário e Coutinho, prefiro a concretude dos camponeses do segundo à indagação existencial do primeiro. Mas há alguma coisa que me incomoda no Cabra. Numa das ‘trocentas’ vezes que revi o filme, revi também, um dia antes ou depois, o Edifício Master, que é o ‘meu’ Coutinho. E aí percebi que Coutinho, na época do Cabra, ainda não havia desenvolvido seu método de entrevista. Digo isso tentando entender o que me deixa ‘fora’. Pois com tudo o que tem o filme, e tem muito, ainda falta – acho. O próprio Coutinho talvez pensasse isso, para voltar tanto ao Cabra. Tenho pensado muito em últimas conversas, não o filme, mas as nossas. Nas últimas vezes em que falei com ele Coutinho me pareceu cansado. Queixava-se que não conseguia mais ir ao teatro nem viajar porque fumava compulsivamente. Uma hora sem nicotina, para um voo ou peça curta, já seria demasiado para ele. Não sei se por que o encontrei em rodadas de entrevistas de filmes, quando ele emendava uma conversa na outra, saía um jornalista e entrava o seguinte, mas sentia nele uma espécie de insatisfação. Pelo respeito que impunha, cobravam-lhe declarações sobre filmes e diretores. Muitas vezes me dizia que ninguém ia fazê-lo falar mal de filme brasileiro, e eu admirava essa integridade. Em off, na confiança, ele fazia observações preciosas, que guardo até hoje. Mas quero crer que havia ali, naquele enfado, uma crise que se desenhava. Por maiores que fossem os elogios de toda essa gente a seu redor, paparicando, Coutinho devia saber que Jogo de Cena foi seu último grande filme – e um dos maiores, com Edifício. Nem Moscou nem Últimas Conversas saíram como ele gostaria. O segundo é póstumo, nem foi ele que montou. Não duvido que Coutinho pudesse se reinventar, como fez outras vezes, mas teria de fugir do círculo sufocante da devoção em que estava sendo encerrado. Tenho minha interpretação sobre as circunstâncias de sua morte, mas não ouso publicar (nem no blog). O que penso tem a ver com isso e algo mais. O que quero dizer é que pode haver até dois Coutinhos na minha lista de 25 do coração, e são o Edifício e o Jogo.

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