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Tyler Perry e Thandie Newton na Sessão da Tarde

Luiz Carlos Merten

23 de maio de 2020 | 22h16

Refletindo sobre o post anterior, as cenas do meu isolamento, penso que, se é verdade que a paisagem só existe pelo nosso olhar, então um dia essas cenas desaparecerão comigo. Deve ser por isso que estou tendo tanto prazer em revê-las na lembrança. São o meu patrimônio pessoal. Havia escrito sobre o garoto negro que morreu no Rio. Ia acrescentar que essa guerra civil não acaba nunca, mas não é guerra civil. É genocídio. A Ruanda brasileira. Lembrei-me de um texto no livro Cinema Americano 1960/1968, das Publicações Dom Quixote, de Lisboa. Procurava outra coisa no outro dia e topei com o volume. Sabia onde procurar. Um texto de Marcel Martin analisa o cinema negro da época, anterior aos blaxploitation movies por volta de 1970. Sidney Poitier, que havia recebido o Oscar por Uma Voz nas Sombras, de Ralph Nelson, de 1964, dizendo que tentava escolher papeis inspiradores – não apenas para plateias negras, mas também de brancos, na expectativa de quebrar paradigmas e tornar o olhar mais igualitário, livre de preconceito. E Poitier defendia-se da acusação de criar personagens estereotipados, acrescentando que estava tentando vencer 60 anos de clichês do negro serviçal, sem dignidade. Um dos filmes era Um Homem para Ivy, de Daniel Mann, de 1968, Martin transcreve o que dizia o crítico do The New York Times, uma ironia que, com a distância, não parece menos preconceituosa. Como era, na época, uma comédia romântica all black? Era como ver Doris Day e Rock Hudson negros. Lembrava-me da observação e há dias tenho pensado nela. Assisti nesta semana, na Sessão da Tarde, a Uma Boa Ação/Good Deeds. Não conhecia o filme de Tyler Perry. Nem sabia direito quem ele era. Fui fazer uma pesquisa e descobri que é um homem orquestra. Ator, autor, diretor, produtor. Um mogul negro e, segundo a Forbes, numa pesquisa de 2009, o sexto maior salário de Hollywood. O filme é sobre um executivo negro. Administra o negócio milionário da família. É um homem infeliz. Não vive como quer, mas como querem a mãe, a noiva (futura mulher). Encontra Thandie Newton, que trabalha na limpeza da firma. Ela tem uma filha. Dá duro para sobreviver, para manter a guarda da menina. Com toda dificuldade, ensina algo a Tyler – a ser ele mesmo. Tyler é um homem doce, Thandie é uma linda mulher. No começo dos anos 1990, ia ao Festival de Veneza como enviado do Estado. Foi em 1994 ou 95. O filme era The Journey of August King, de John Duigan, com Jason Patric e Thandie Newton. Entrevistei Duigan e seu elenco. Invertendo o que disse lá atrás o crítico do The New York Times, Uma Boa Ação talvez não fosse nada demais, se fosse all wasp. Mas tem ali uma coisa interessante. É sobre e com negros, num estrato social que Hollywood ainda tem dificuldade para abordar, mesmo na era do cinema de gênero de Jordan Peele. Spike Lee tentou fazer isso, mas Mais e Melhores Blues, de 1990 – há 30 anos -, sobre um bluesman, não é considerado um de seus melhores filmes. Gostei de ter visto Uma Boa Ação, gostei da quiímica entre Tyler e Thandie. Confesso que, apesar da minha admiração por Lázaro Ramos e Taís Araújo, nunca vi Mister Brau, mas fiquei pensando que a série de Maurício Farias, afinal, pode ser um Good Deeds nacional.

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