As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Túnel do tempo

Luiz Carlos Merten

12 de julho de 2014 | 20h16

Recebi o novo pacote da Versátil, com a caixa O Cinema de Ozu – Volume 2. São mais seis filmes do mestre – Pai e Filha, Começo de Primavera, Ervas Flutuantes, Fim de Verão, Flor do Equinócio e Uma Galinha no Vento. Mas o pacote também resgata duas obras-primas de gênero – À Queima-Roupa, de John Boorman, com Lee Marvin, e O Samurai, de Jean-Pierre Melville, com Alain Delon, ambos de 1967. Gosto demais desses dois filmes. Deus do céu! Como estou velho! Sou contemporâneo desses filmes. Estava lá, quando estrearam no Brasil. Lembro-me perfeitamente do impacto que me produziu o filme de Boorman. Era, na época – e continua sendo -, uma releitura moderna, à Resnais, de tramas clássicas de gângsteres. Marvin atualizava Bogart, e Angie Dickinson emulava Lauren Bacall. Lembro-me de uma análise do lendário Antônio Moniz Vianna, que comparava À Queima-Roupa a À Beira do Abismo (The Big Sleep), de Howard Hawks, dos anos 1940. Vocês talvez não acreditem – dei um tempo no post e fui procurar minha coleção do Guia de Filmes que o antigo INC editava nos anos 1960 e 70. Guardo três volumes encadernados. A crítica de À Queima-Roupa está no número 14, que lista os filmes estreados no Rio em março/abril de 1968. Um ano mítico, e a revista traz as críticas de filmes também míticos – Agora Você É Um Homem (Francis Ford Coppola), A Bela da Tarde (Luis Buñuel), Cara a Cara (Júlio Bressane), A Chinesa (Jean-Luc Godard), De Punhos Cerrados (Marco Bellocchio), O Homem Nu (Roberto Santos), Privilégio (Peter Watkins), O Segredo de Uma Esposa (Shoei Imamura), Tempo de Guerra (Godard, de novo), O Tigre e a Gatinha (Dino Risi) etc. Meninos, eu vi. Não exatamente em março/abril de 68, porque naquelas época os filmes não estreavam simultaneamente em todo o País. Demoravam um pouco as chegar a Porto Alegre. E O Samurai? Estreou no Rio em julho/agosto do mesmo ano. Está no Guia de Filmes 16, que inclui 2001 (Stanley Kubrick), Gaviões e Passarinhos (Pier-Paolo Pasolini), Os Impiedosos (Don Siegel), Mouchette, a Virgem Possuída (Robert Bresson), Os Pecados de Todos Nós (John Huston) e Uma Rajada de Balas (Bonnie & Clyde, de Arthur Penn). Filmes que fazem parte da ‘legenda’, como dizem os franceses, obras de antologia que muitos de vocês conhecem do DVD e nem devem ter visto no cinema. Delon como assassino profissional, Jeff Costello. ‘Não há solidão maior que a do samurai, só comparável à do tigre na selva.’ A frase do Bushido, o código de honra dos samurais, serve de epígrafe para Melville. Delon cumpre um contrato, mas é traído. Ele executa o traidor e aceita, como um samurai, seu destino trágico. Nada nem ninguém segue nesse filme preceitos que possam ser explicados pelos códigos do gênero. François Périer, o chefe de polícia que comanda a caçada ao criminoso, encarna o Destino das tragédias gregas. A pianista negra, na boate, para onde converge a ação, é a Morte. Na hora H, Delon fica entre os dois. Melville, precursor da nouvelle-vague, buscou uma estilização (quase) operística no décor e nas imagens. Pensam que era só Sergio Leone? É um grande, imenso filme e Delon tem um de seus papeis definitivos. Foi analisando as linhas do rosto e os olhos do ator que Melville encontrou o formato do jidai-jeki. E não se esqueceu de vestir o astro com a gabardine e o chapéu de Bogart, assimilando a influência do filme noir hollywoodiano dos anos 1940. Afinal, não foi por acaso que Melville, mesmo protestando, adquiriu a reputação de ‘mais americano dos grandes diretores franceses’.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: